Imagem Veloz

Entre as imagens e as palavras correm rumores


(Imagem : Chris Marker)





A BRUXA COR DE ROSA

 
Enquanto a maioria dos meninos desenhavam a bruxa com o tradicional chapéu, vassoura, luas e vestido preto − muitos deles exibindo desenhos ricos em pormenores e sofisticados −, Kelson, o miúdo que tem a pele cor do chocolate e nos olhos o brilho das estrelas, transformou alguns aspetos do estereotipo em poucos minutos e de acordo com as qualidades vivas do momento: deu à bruxa um cabelo cor-de-rosa, vestiu-a de noiva (ele é que disse), no pensamento colocou-lhe uma bailarina e aproveitou para declarar o seu amor pela professora e pela rapariga que por lá andava a tirar fotografias a tudo e a todos. Ficou como se pode ver, não muito perfeito mas espontâneo - próprio daqueles para quem a vida ainda se come quente e não precisa de receitas.

“ Há cinquenta anos. Há meio século. É já tempo bastante para a História se mover. E todavia não é bastante para se mover em nós um sinal profundo de vida. Um encontro, um elogio, um vexame. Tudo tão pouco. E tanto. Uma fotografia inesperada de alguém que amámos e morreu e desapareceu no montão de coisas que foram e nos aconteceram. E de súbito uma absurda irrealidade começa a existir numa pancada funda na alma. E um encantamento sem significação. E uma melancolia grave como um horizonte longínquo. E um choro para dentro, estúpido e terno.”

- Vergílio Ferreira, in Pensar

Melita, Catarina e Sóninha

Ficaram os seus olhares brancos a flutuar no escuro. Havia no rosto das três um principio comum. Uma espécie de claridade não corrompida a sobressair no negro da pele.  
Na História dos Três Porquinhos, Wagner era o Lobo Mau. Começara por encher as bochechas de ar, ajustou os lábios fartos ao microfone e suprou. Ficou a um passo de levar a platéia pelos ares. E a fotógrafa andava por lá. Circundava o caos da direita para a esquerda, subiu para cima da mesa (dizia "reservado", mas enfim); experimentou um plano contrapicado, aberturas de diafragma maiores ... Não foi desta que o Lobo Mau teve uma fotografia digna de moldura. Depois baixaram os  smartphones, os iphones, os tablets, as câmaras compactas, as teleobjectivas e todas essas extensões, mais ou menos sofisticadas, do olhar. As mãos ficaram livres para aplaudir. Um sorriso de mãe — daqueles que deixa a alma ao rubro nos olhos — enche o espaço.  Como estava fora de cena e não fazia parte do assunto principal, ninguém o quis destacar.
A beleza é um irreal em digressão. Debaixo daquele chapéu deu o seu melhor . Partiu momentos depois.
Robert Doisneau

Deixou a velha vida em busca de si.
Saudade, lágrima.
Uma foto. Sorriu.
Trazia consigo os que amava. 

- Edson Rossatto, in cem toques cravados 

“E a fadiga. E o medo. E ir dar à aparição de ti. Então devagar. Tenho o envelope na mão, devagar tiro lento devagar, a fotografia vem aparecendo à luz. Esplendorosa ovante, a auréola de riso para fora do riso, está lá .Olho-te intensamente. Olho-te para o lado de lá do que está, porque não está lá o que procuro que é o que procuro? É estranho, que é que? porque não é isso. Como um muro a imagem, embato contra ela e o que estremece em mim hesita desorientado como um animal encurralado. Há um riso e vejo-o muito bem. Devia estar vento, o teu cabelo desfraldado. Vê-se-te uma orelha, e a maciez da tua pele, tocar-te. Mas estás fora de lá estar. Há assim um fuga entre a hesitação de imaginar-te e a travagem de estar ali no teu limite. Mas a imaginação é mais forte, transborda para além de ti. Depois volto a ver-te para tudo ser real. Mas não é possível haver esse real no que está em mim, sofro. Como num mistério, não sei , no sagrado. Em toda a beleza. Não se pode ter, a verdade dela está muito mais longe do que ela, quando se chega já não está lá, é assim. ”

- Vergílio Ferreira, in até ao fim
“Da sala de jantar passa-se para uma sala quadrada onde há uma porta que dá diretamente para o patamar de pedra que confina com a duna. Quem vem de fora sacode os pés antes de entrar para não encher a casa de areia. Ali as cadeiras de vime pintadas de castanho quase preto fazem um círculo à roda da mesa baixa onde o cigarro poisado no cinzento arde sozinho ao lado da jarra cheia de dálias vermelhas. Nesta sala reinam as fotografias.
 Cercadas pela moldura de prata ora ovais ora redondas ora retangulares as fotografias estabelecem, dentro do tempo, outro tempo, e, dentro da casa outras casas e jardins. Verdes jardins sombrios e secretos cujo sussurrar se funde no silêncio. “




- Sophia de Mello Breyner Andresen, A Casa do Mar, in Histórias da Terra e do Mar


No n.º22 r/c esq. de uma rua como tantas ruas, na porta de entrada, um letreiro discreto ao centro: “Família Fonseca” . Dentro da casa ainda permanece um rapaz em frente a um monitor. Verte mundos através dos dedos longos, cálidos. Correm pelas teclas sem tropeços. Depois param numa espécie de leveza contemplativa. Nas divisões mudas irrompem as fotografias, emolduradas e sempre limpas, da família. Rastos de luz extinta.

« Agora uma pose. Sem correr.»



Paula limpou, com um ligeiro gesto, vestígios de suor na  testa. Tirou os óculos redondos, amplos. Alguma coisa parecia faltar. Os óculos ganharam uma espécie de raiz no rosto; um lugar irrepreensível na expressão. Depois substituiu o chapéu de pano azul, de onde o cabelo saiu murcho, por aquele de palha e abas grandes com um friso de flores ao centro. Iluminou-se.


Um pão numa mão; na outra, uma bolacha. Depois é só esticar os lábios e mostrar os dentes ( sorriso pepsodent). Só faltava um elemento de ligação para mostrar o invisível no que nos é dado a ver (e envolver para tornar mais espesso) .
Nina Lee

“Efémero” quer dizer “Belo”.
A menina enfiou um chapéu azul e amarelo que a protegia do sol. Com um elástico, prendeu-o à volta do queixo. O estado de alma tornara-se uma adivinha. Era vê-la correr naquelas planícies verdes e ensolaradas de olhos escondidos e tranças pretas a oscilarem ao sabor do vento e do movimento. No friso amarelo do chapéu de pano estava escrito,a letras manuscritas, Inês L. 


( Esta sim, esta não. Esta ( não se veem os olhos):sim ou não?)
" Modelo. A centelha apanhada na sua pupila dá significação a toda a sua pessoa."

-Robert Bresson
"Não há rosto que não envolva uma paisagem desconhecida, inexplorada, não há paisagem que não seja povoada por um rosto amado ou sonhado, que não desenvolva um rosto por vir ou já passado. Que rosto não chamou as paisagens que amalgamava, o mar e a montanha, que paisagem não evocou o rosto que a teria completado, que lhe teria fornecido o complemento inesperado das suas linhas e dos seus traços?"

 - Gilles Deleuze

Jan Saudek ( 120km/h)

Depois de viajar por uma série de imagens de Jan Saudeck, acabei por me lançar exausta na que me pareceu mais nua que todos os nus que vi.

O rapaz indiano

Tinha um olhar límpido e uma amabilidade despretensiosa.Dava vontade de ficar a flutuar naquele rosto. E ser feliz.




Adama

Agora com o tablet e o iPhone, Paulo perdeu a elegância com que desenhava as letras. O caderno preto de capas grossas, com bailados gráficos audíveis, ficou guardado no fundo da gaveta. Por vezes a evolução veda-nos o acesso a algumas delicias.

Imagem :Adama 

"No último dia em que nos encontrámos, a Cláudia ofereceu-se para me levar ao carro. Respondi que não era necessário - estava tão perto e, além disso, eu deveria até andar mais a pé... 
Insistiu, «talvez haja pêlo da Lukita no banco», mas acabámos por nos despedir ali.
Na curta distância que me separava do parque onde deixei o "Sapinho", o pensamento nasceu sincopado. As ideias eram simples flashes, sem pressa, sem pressão. E uma das que me acompanhou trazia Lukita. 

Lukita. Não a conheci mas muitas vezes esteve ali ao lado, nestes nossos encontros sem tempo - mesmo que com os minutos a pingar rapidamente, quando o toque da campainha comandava os meus passos.
​ Lukita nunca foi tema de uma nossa conversa. E, ainda assim, estava lá. Atravessava-as, entrava e saía. A sua presença nunca precisou ser anunciada. Nem registada. 

No Deve & Haver da nossa vida​ talvez lancemos o que é importante. Nunca o que é vital. Nas Receitas nunca haverá entrada para o afecto, como nas Despesas não há linhas para o vazio que não sabemos dizer.

Dizemos 
Vi um pássaro,
acrescentamos
Comi morangos.

Nunca nos lembramos de referir
Respirei.
Também o ar entra e sai e atravessa as nossas conversas."
- Cristina Silveira de Carvalho 

# CA 102

Saber olhar para uma câmara é uma competência. Filipe tem esta marca.Está bem consigo quando olham para ele.


“ Era uma fotografia antiga e eu também estava lá. Era um grupo, talvez no Jardim Botânico - foi aí que te conheci? Mas eu conheci-te no espaço do imaginário, sem realidade plausível para poderes ser real. Mas no imaginário é que é tudo e o real é uma procura para se encontrar com ele. E quando o não encontra há só que desistir - Flora. Onde estás estavas? Oriana estava um pouco de lado. E ria. Sempre a conheci a rir, não deve ter chorado ao nascer. Olhei a foto e todo eu estremeci de uma ternura breve. Tinha um vestido claro lembro-me devia talvez já ser Verão. Então tomou-me o desejo de a isolar, suprimir o excesso à sua volta, mesmo o de mim que também lá estava. Porque tudo era demais para ela só existir num recanto de mim, no absurdo de retornar à vida o que os anos submergiram - quantos anos? Mas isso mesmo - como é fascinante. Quarenta anos talvez? Oriana . Ficção mítica da minha fadiga. Retornar à vida o que ninguém sabe, o que ninguém recorda. E foi como se regressasse ao fim do tempo. À convulsão de mim no extremo da memória. À eternidade que lá mora. Tomei o retrato, estalava já nalguns sítios, levei-o a uma fotografia. O homem olhou-a, não era possível, tinha o seu orgulho profissional. Mas mesmo com defeitos, disse eu. O homem tinha o seu prestígio, eu tinha a minha necessidade. E decerto havia tanta ansiedade no meu pedido. E uns oito dias depois. O homem tirou a fotografia do envelope - Oriana. A sem par. Peguei,guardei-a logo, tudo na vida negava o meu encantamento. Trouxe-a no bolso e quando cheguei a casa. Não queria ver, a sua própria imagem era demais para o absoluto de imaginar. Porque havia nela uma fracção de realidade e tudo me existiu no irreal “

-Vergílio Ferreira, in 
até ao fim


8 de Maio de 2015

(À semelhança da ação da geada nas asas de uma borboleta, as pálpebras de Luka já pesam; os passos, à custa do fardo do tempo, ganharam uma cadência lenta. Agora, nada mais que um inverno. Vai passando das mãos de Cláudia para as de Pedro, roça nos modos simpáticos de Carla. Vem depois Augusta. Com afagos, deixa-lhe um rasto daquele perfume no pelo. A amiga Paula – desde sempre doutora dos cães, mesmo antes de ser gente – fica de rosto espremido quando não consegue restaurar-lhe o brilho dos olhos. Luka lançava-se no verde como uma flecha, dava giros estonteantes, expressava-se com a cauda, as orelhas. E os olhos: inesquecíveis. Não sei porquê, mas fica sempre esta fragrância das estações anteriores ao frio.

«Vamos à rua!?» A resposta era um excesso.)

Adama
"O que nos diz a imagem? Diz-nos o que é e não o diz.
Porque não é uma palavra. Antes um silêncio,
Uma ausência, um vazio.
O seu sentido é uma promessa de sentido
Ou o silêncio do sentido que respira e transparece.
Ausência na presença plena.
Cintilação silenciosa e fixa de um olhar sem fim.
Um olhar vazio de tudo – que vê e não vê
E só vê porque é cego.
Tudo nele é visão, mas a visão vê tudo."

António Ramos Rosa, «Le Domaine Enchanté»

A luz tem melodia. A fotografia também.
“ If I were just curious, it would be very hard to say to someone, "I want to come to your house and have you talk to me and tell me the story of your life." I mean people are going to say, "You're crazy." Plus they're going to keep mighty guarded. But the camera is a kind of license. A lot of people, they want to be paid that much attention and that's a reasonable kind of attention to be paid.” 

-Diane Arbus

Uma fotografia para Domingo

Adama

“As memórias lhe fazem bem. A Avó afaga uma mão com a outra como se entendesse retificar o seu destino, desenhado em seus entortados dedos.
- Agora, meu neto, me chegue aquele álbum.
Aponta um velho álbum de fotografias pousado na poeira do armário. Era ali que, às escondidas, ela vinha tirar vingança do tempo. Naquele livro a Avó visitava lembranças, doces revivências.
Mas quando o álbum se abre em seu colo eu reparo, espantado, que não há fotografia nenhuma. As páginas de desbotada cartolina estão vazias. Ainda se notam as marcas onde, antes, estiveram coladas fotos.
- Vá. Sente aqui que eu lhe mostro.
Finjo que acompanho, cúmplice da mentira.
- Está ver aqui seu pai, tão novo, tão clarinho até parece mulato?
E vai repassando as folhas vazias, com aqueles seus dedos sem aptidão, a voz num fio como se não quisesse despertar os fotografados.
- Aqui, veja bem, aqui está sua mãe. E olhe nesta, você, tão pequeninho! Vê como está bonita consigo no colo?
Me comovo, tal é a convicção que deitava em suas visões, a ponto de meus dedos serem chamados a tocar o velho álbum. Mas Dulcineusa corrige-me.
- Não passe a mão pelas fotos que se estragam. Elas são o contrário de nós: apagam-se quando recebem carícias.
Dulcineusa queixa-se que ela nunca aparece em nenhuma foto. Sem remorso, empurro mais longe a ilusão. Afinal, a fotografia é sempre uma mentira. Tudo na vida está acontecendo por repetida vez.
- Engano seu. Veja esta foto, aqui está a Avó.
- Onde? Aqui no meio desta gente toda?
- Sim, Avó. É a senhora aqui de vestido branco.
- Era uma festa? Parece uma festa.
- Era a festa de aniversário da Avó.
Vou ganhando coragem, quase acreditando naquela falsidade.
- Não me lembro que me tivessem feito uma festa…
- E aqui, veja aqui, é o Avô lhe entregando uma prenda.
- Mostre! Que prenda é essa, afinal?
- É um anel, Avó. Veja bem, como brilha este anel!
Dulcineusa fixa a inexistente foto de ângulos diferentes. Depois, contempla longamente as mãos como se as comparasse com a imagem ou nelas se lembrasse de um outro tempo. […]
Quem parte de um lugar tão pequeno, mesmo que volte, nunca retorna. […]
Os lugares não se encontram, constroem-se. […]
O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora.”

Mia Couto, in Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra








(Ele prestava-lhe uma atenção viva ( em silêncio). Ela envolvia-o com uma expressividade enriquecida de sorrisos. Deixava voar os gestos. Não era propriamente um muro o que os separava. Talvez um véu. A força da imagem estava numa certa ambivalência, uma intimidade smi emcoberta.)

"Vejo, e já é muito"

"Ninguém compreende o outro. Somos, como disse o poeta, ilhas no mar da vida; corre entre nós o mar que nos define e separa. Por mais que uma alma se esforce por saber o que é outra alma, não saberá senão o que lhe diga uma palavra - sombra disforme no chão do seu entendimento.
Amo as expressões porque não sei nada do que exprimem. Sou como o mestre de Santa Marta: contento-me com o que me é dado. Vejo, e já é muito. Quem é capaz de entender?
Talvez seja por este cepticismo do inteligível que eu encaro de igual modo uma árvore e uma cara, um cartaz e um sorriso. (Tudo é natural, tudo artificial, tudo igual.)"

-Bernardo Soares, in livro do desassossego
Os melhores retratos de Tamsin davam-se no intervalo da necessidade de ficar bem na fotografia e no receio que isso não acontecesse, com todos os fantasmas interiores a açambarcar as expressões e os gestos. Cláudia volta a insistir nos grandes planos onde tudo isto ganhava relevo ( « a fotografia é implacável», o Miguel sempre disse) . Editou apenas o que ficou desse intervalo. Como um momento em que os pés descansam dos saltos e o corpo respira livre de espartilhos. Há uma beleza não fabricada que tem um cair despojado, despretensioso e livre.
Robert Frank




"O florir do encontro casual
Dos que hão sempre de ficar estranhos…

O único olhar sem interesse recebido no acaso
Da extrangeira rápida…

O olhar de interesse da creança trazida pela mão
Da mãe distraida…

As palavras de episodio trocadas
Com o viajante episódico
Na episódica viagem…

Grandes maguas de todas as coisas serem bocados…
Caminho sem fim…"

Álvaro de Campos, in livro de versos
Nunca nos podemos banhar duas vezes na água do mesmo rio “( Heraclito). A fotografia fala-nos nisto: do extraordinário e da vida que corre e a correr renova e desfaz…


O céu e a terra passarão…” ( Mateus 24:35) mas o extraordinário reacender-se-á inesperadamente. O rosto, o gesto, a assinatura são só os lugares onde se mostrou (e voou).
Por Dawoul Bry, da série Class Pictures

I. exibe com satisfação as fotografias da filha. B. é um espanto. Conseguimos prová-lo. A luz enamorou-se dela.O tom de pele e as cores do vestido naquele fundo assentaram na perfeição (seria sorte?). E depois o sorriso, ao rubro, com a alegria que as mães gostam de ver nos filhos. A cara toda no enquadramento. Onde está a fotógrafa? Tornou-se uma raiz esquecida. Isto sucede porque carregar num botão e copiar a realidade em fragmentos parece coisa de crianças. Só o olhar treinado e atento  vê no referente uma espécie de autorretrato indireto.O retrato técnico é uma relação do fotógrafo com o modelo que a expressão tantas vezes sintetiza. Depois entra sempre o imprevisto. Fotografar é ( também) estar alerta.


-  Qual é a tua profissão?

- Tiro fotografias.

- E só fazes isso!?

Cuando las fotos eran retratos minuteros al aire libre


Michelle Frankfurter, da série Family Album

No dia 15 de Abril Laurinha completou 65 primaveras. Cláudia coroou-a de flores de tonalidades rosa e lilás. Percorreu o colégio a fazer poses. No rosto trazia vestigios do caminho percorrido, mas mantinha a expressão fresca da primeira vida. À sua passagem os miúdos falicitavam-na com vivacidade. As professoras, Rita e Inês, ao fundo do corredor, acelararam o passo para colar os seus sorrisos ao dela ( clic: Laurinha com a grinalda de flores no meio!). Mesmo sabendo qual será o presente de Cláudia – depois das velas apagadas, a maquilhagem desfeita e os olhos a retomar o brando brilho quotiiano - , as fotografias são sempre uma surpresa.
( D. continua uma tentação literária. Isto sucede quando o abismo de contardições numa pessoa é espesso.)
Na Avenida Conde de Valbom uma mulher abre a janela. Os pombos, aos atropelos, debicam grãos no parapeito. Na agitação de asas e bicos, quase lhe picam os dedos. A senhora parecia ter acabado de se levantar do leito da morte, pelos sulcos fundos à volta dos olhos e a pele esvaziada de vida. Quando fecha a janela e as aves procuram outros alvos, a sombra intenssifica-se. Logo ao virar da esquina, na Avenida Duque de Valongo, o gerente de uma pastelaria - camisa aos quadrados, volume a romper as marcas - prepara as mesas  ao ar livre. Tenta afastar com mão firme e rubusta os pombos assustadiços. Ainda assim, não resistem ao tentador desafio de uma migalha. Entre o sol e as nuvens não houve nada. A manhã ergueu-se com uma luz irrepreencivel. Cláudia entrou no colégio. Procurou domesticar a claridade excessiva e traduzir nos rostos de Madalena, Marina e Leonor a alegria - ainda sem grandes motivos.

Al Berto vs Luísa Ferreira







"Mas não é nada disto que te quero confiar, querido diário. Quero contar-te o que aconteceu no outro dia. Esteve por aqui uma rapariga a fotografar-nos. Alinhámo-nos rapidamente. Aprumados, como se deve estar, e deixámos que ela – parece que se chama Luísa – nos tirasse o retrato."


- Al Berto, in Dispersos
Robert Doisneau,1956


Uma chávena de café vazia na extremidade de uma mesa, um pau de canela, um pacote de açucar amarrotado. Vai-se desfazendo a agitação urbana. Homens de fato e gravata com o tom cinzento da mesas, dispersam-se, abandonam a esplanada. As nuvens anunciam mais chuva. A Primavera anda pouco convicta. Deixa-se rir numa claridade inviolável. Depois de almoço, Afonso entrega-se à fotografia com uma abertura semelhante a esse riso. Olhos azuis, dentinho a aparecer em todas as expressões, vestígios de suor e fôlego no rosto. Afonso está crescido. Continua a frequentar o colégio. Agora no primeiro ano.

Janeiro de 2015


« Olha que giro» . A exclamação é acompanha de um clique. Logo a seguir outro. Mais uns tantos. Todos no mesmo ângulo, a incidirem no mesmo manequim – representação do corpo expedicionário português na primeira guerra mundial. Uma massa de adolescentes invade o Átrio Principal do Palácio de São Bento onde decorre uma exposição sobre a participação de Portugal na Grande Guerra.Perturbam o ócio das horas. Partilham um maravilhamento todo superfície e um interesse de fingir. E aí está uma selfie ao lado do busto de mármore de Anselmo Braamcamp Freire. (Não chegaram a saber quem foi). « Vem agora tu para aqui»(de tanto vermos parece que deixámos de ver). Outro estalar de interruptor, tão mecânico e instintivo como levar a mão ao nariz . Este a uma pequena escultura dos soldados em África.( Não por o objeto em si, nem por a cultura,  muito menos pela fotografia, mas porque sim).


Na verdade, também nunca gostei de museus. Nunca vi nem ouvi vida ali.

Clarice Lispector vs Claudia Andujar





Fui à casa de Clarice Lispector para fotografá-la a pedido da revista Claudia, que naquele ano de 1961 preparava uma reportagem sobre a escritora. Pouco me lembro daquele dia perdido no tempo, mas há detalhes que guardo para sempre.
Ninguém da revista me acompanhava e fui recebida com muita simpatia por aquela mulher linda, vestida com simplicidade e elegância.
Conversamos pouco. Quis deixá-la à vontade para a foto, e perguntei como gostaria de se posicionar. Se não me engano, a ideia de sentar diante da máquina de escrever e começar a trabalhar em algum texto foi de Clarice. E então ela se deixou absorver pelo ato de escrever, completamente entregue, sem quase notar minha presença.”

in, Blogue da Coracnaify

"- Estão aqui as fotografias que me emprestou. Onde as ponho?
 Na semana anterior, Dona Munda mostrou-lhe o álbum de família. Espantoso como ela,na sua juventude era parecida com a filha Deolinda. O médico não saberia distinguir entre uma e outra. Essa semelhança impressionou-o a ponto de  o encorajar a abdicar do distanciado respeito que ele sempre preservou. E foi por isso que ele pediu as fotografias de empréstimo. Dona Munda reagiu com a mesma indolência com que agora sugere que o médico tome posse dessas lembranças.
- Leve-as, fique com elas , meu caro Doutor. as fotos fazem de parentes peças de mobiliário.
- Ora. Dona Munda...
- Além disso estas fotos não me pertencem.
- Não entendi: essas fotos não são suas?
- Eu é que não sou dessas fotos. Tudo isso aí é de um tempo que já morreu, a gente fica menos vivo só de entrar nessas lembranças."

- Mia Couto, in venenos de deus,remédios do diabo




#PS 2236

Madalena revelou um rosto desconhecido. Quando desceu do enquadramento esfumou-o em movimentos comuns.
(Ao tirar o bolo de chocolate do forno, a mãe torcia o nariz. Depois de o desenformar, abanou a cabeça com ar desconsolado. Sempre que os bolos não apresentam um aspeto franco, compara-os ao bolo da Heidi. De tão duro, virou tambor.Não será certamente um instrumento de percussão para o meu irmão.)

O violino das quatro Estações de Vivaldi ganhava corpo na sala de aula quase vazia. O timbre avançava brilhante, agudo. Depois amenizava. Tinha a mesma qualidade límpida da manhã. A educadora Nucha sentada numa pequena cadeira, mão no peito,olhos lacrimosos e um copo de água nas mãos, não aguentou até ao final do intervalo para abandonar o local. As duas funcionárias que a tentavam auxiliar mostravam uma atenção adulta, pouco expressiva.


Depois de almoço as cadeias foram ocupadas pelas crianças que desenhavam o fim-de-semana passado por sugestão de João, o auxiliar. Tomás sobrepunha-se à música de fundo. Papagueava sem freio. Era o centro das atenções na mesa onde se encontrava com mais cinco crianças. Arranhava uma cantiga de Anselmo Ralph, depois outra do género, uma lengalenga dos macacos nas paredes e outras coisas mais. Ainda assim, o desenho surgia resoluto. Cláudia captava-lhe os olhos grandes, expressivos, emoldurados num corte de cabelo com uma franja linear. Quando os aliviou da folha, numa fração de segundo do seu silêncio, ficou na fotografia a desenhar. E a sinfonia de Vivaldi prosseguia( prossegue, talvez) inabalável no seu curso circular, mais ou menos sumida. E as crianças vêm e vão. Desfazem-se da infância; mudam de pele.

Poderia dizer-vos: amo-vos como sois. Nesse jeito desenfreado de correr atrás de uma bola ( Olha o João. Está à defesa na baliza com uma sandes na mão!), no modo tímido, ainda que sinuoso de olhar ( a Madalena e a Cláudia nas laterais. Cumplicidade chegada, fotogenia no tom). “Somos feitos da mesma matéria dos sonhos”( Shakespeare)–incrivelmente belos, passageiros,um tanto irreais. Não estou aqui para vos educar (que profissão inútil!). Simplesmente para vos apreciar e conferir valor:magros, gordos, brancos, negros. Todos os modelos estão bem.” Toda a gente é interessante se a gente souber ver toda a gente.” ( Álvaro de Campos)

O olhar é um pensamento




Tudo assalta tudo,e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora
-não posso escrever mais alto
transmitem-se,interiores,as formas.
-Helberto Helder

“(…)A transcendência da realidade começa na fotografia e termina na palavra. Porque é que ao olhares um objeto conhecido e vês a sua fotografia, olhas esta com um sentir diferente? Porque é que o real e a sua pressuposta imagem fotográfica têm de permeio algo de estranho ou surpreendente? Há já aí uma transposição para um outro domínio em que o imaginário obscuramente se nos abre, como creio já ter dito. Que todavia se leia o que o escritor viu nesse real fotografado e saberemos como a própria imagem se transfigurou. E é o que se inicia já na representação pictórica do mesmo real, por mais 'realista' que ela for. Mas a palavra transpõe-no para o máximo de irrealização, porque é necessário reconstruí-lo e fixá-lo no puro imaginar. Do real à palavra vai uma distância infinita. É a que vai da bruteza ou confusão à essencialidade oculta, a que vai do ver material ao anônimo ou imaginário aberto por um ver subjetivo que lhe dá uma significação. O real está do lado das coisas. O imaginário, do lado do homem. Mas o real não existe, se o homem o não o fizer existir."


Vergilio Fereira in Pensar
O rosto anda sempre nu. Talvez por isso Lucas tentasse vesti-lo de expressões exacerbadas.
“SORRIA...OLHE O PASSARINHO” - refrão entranhado, mito urbano. Porquê esta quase obrigatoriadade de sorrir? Os grandes retratos não têm sorriso (mas têm entrega).
"Sê o primeiro a ver o que vês como tu o vês." 


- Robert Bresson
Este ano o professor Miguel tem em mãos o primeiro ano de escolaridade. Essa matéria plástica, dúctil, recetiva. Quando eleva os olhos por cima dos óculos retangulares, sem aros, o rosto rasga-se com a mesma suavidade com que prenuncia as palavras “menino”, “menina” ou dá os bons-dias. E lá está o pequeno Diogo na primeira fila. Olhos muito abertos, lábios contidos, perfeitamente esculpidos, numa pele que parece porcelana onde a dor ainda não é possível. Logo ao lado dele, a fazer contraste, está a Madalena. Parece já ter vivido centenas de vidas até chegar ali. Responde a tudo o que lhe perguntam, mas deixa a expressão desmaiar numa espécie de tédio. Mais a meio, a Maria Teresa. Teresa não basta, muito menos Teresinha. Quando lhe perguntam como se chama, ela diz um nome longo como um comboio de palavras. Depois,revira com frequência os olhos para os lados e para cima (por este andar arrisca-se a vir sofrer de vertigens!). Ao fundo, na última fila, temos o Rodrigo, o miúdo da afiadeira. Passa as aulas com a obsessão pela agudeza, por isso se atrasa a concluir as fichas. Afia, afia, afia. Todos os dias derrete um lápis. Já os colegas tinham feito os círculos à volta das letras, ainda Rodrigo afiava um lápis que já aí a meio. Teve que ser a Cláudia a desengatar outro para o miúdo terminar a tempo.


«São vinte cinco, caramba, vinte e cinco!» Olha agora o professor com os olhos bem centrados nas lentes e a caneta azul de quadro branco em cujas mãos passa uma sensibilidade fina.
"Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos.
O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exactamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.
Não há dois sorrisos iguais. Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso.
O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso."


- José Saramago