“ Há cinquenta
anos. Há meio século. É já tempo bastante para a História se
mover. E todavia não é bastante para se mover em nós um sinal
profundo de vida. Um encontro, um elogio, um vexame. Tudo tão pouco.
E tanto. Uma fotografia inesperada de alguém que amámos e morreu e
desapareceu no montão de coisas que foram e nos aconteceram. E de
súbito uma absurda irrealidade começa a existir numa pancada funda
na alma. E um encantamento sem significação. E uma melancolia grave
como um horizonte longínquo. E um choro para dentro, estúpido e
terno.”
- Vergílio
Ferreira, in Pensar
Melita, Catarina e Sóninha
Ficaram
os seus olhares brancos a flutuar no escuro. Havia no rosto das três
um principio comum. Uma espécie de claridade não corrompida a sobressair no negro da pele.
Na
História dos Três Porquinhos, Wagner era o Lobo Mau. Começara por encher
as bochechas de ar, ajustou os lábios fartos ao microfone e suprou. Ficou
a um passo de levar a platéia pelos ares.
E a fotógrafa andava por lá. Circundava o
caos
da direita para a esquerda, subiu para cima da mesa (dizia "reservado", mas enfim);
experimentou um
plano contrapicado, aberturas
de
diafragma maiores ...
Não
foi desta que o Lobo Mau teve
uma fotografia digna de moldura. Depois
baixaram os
smartphones,
os iphones,
os tablets,
as câmaras compactas, as
teleobjectivas
e todas essas extensões,
mais ou menos sofisticadas,
do
olhar.
As mãos ficaram livres para aplaudir. Um sorriso de mãe —
daqueles
que deixa a alma ao rubro nos olhos —
enche
o espaço. Como estava fora de cena
e
não fazia parte do assunto principal, ninguém o quis destacar.
“E a fadiga. E o
medo. E ir dar à aparição de ti. Então devagar. Tenho o envelope
na mão, devagar tiro lento devagar, a fotografia vem aparecendo à
luz. Esplendorosa ovante, a auréola de riso para fora do riso, está
lá .Olho-te intensamente. Olho-te para o lado de lá do que está,
porque não está lá o que procuro — que é o
que procuro? É estranho, que é que? porque não é isso. Como um
muro a imagem, embato contra ela e o que estremece em mim hesita
desorientado como um animal encurralado. Há um riso e vejo-o muito
bem. Devia estar vento, o teu cabelo desfraldado. Vê-se-te uma
orelha, e a maciez da tua pele, tocar-te. Mas estás fora de lá
estar. Há assim um fuga entre a hesitação de imaginar-te e a
travagem de estar ali no teu limite. Mas a imaginação é mais
forte, transborda para além de ti. Depois volto a ver-te para tudo
ser real. Mas não é possível haver esse real no que está em mim,
sofro. Como num mistério, não sei , no sagrado. Em toda a beleza.
Não se pode ter, a verdade dela
está muito mais longe do que ela, quando se chega já não está lá,
é assim. ”
- Vergílio
Ferreira, in até ao fim
“Da sala de jantar
passa-se para uma sala quadrada onde há uma porta que dá
diretamente para o patamar de pedra que confina com a duna. Quem vem
de fora sacode os pés antes de entrar para não encher a casa de
areia. Ali as cadeiras de vime pintadas de castanho quase preto fazem
um círculo à roda da mesa baixa onde o cigarro poisado no cinzento
arde sozinho ao lado da jarra cheia de dálias vermelhas. Nesta sala
reinam as fotografias.
Cercadas pela moldura de prata ora ovais ora redondas ora retangulares as fotografias estabelecem, dentro do tempo, outro tempo, e, dentro da casa outras casas e jardins. Verdes jardins sombrios e secretos cujo sussurrar se funde no silêncio. “
- Sophia de Mello Breyner Andresen, A Casa do Mar, in Histórias da Terra e do Mar
Cercadas pela moldura de prata ora ovais ora redondas ora retangulares as fotografias estabelecem, dentro do tempo, outro tempo, e, dentro da casa outras casas e jardins. Verdes jardins sombrios e secretos cujo sussurrar se funde no silêncio. “
- Sophia de Mello Breyner Andresen, A Casa do Mar, in Histórias da Terra e do Mar
No n.º22 r/c esq. de
uma rua como tantas ruas, na porta de entrada, um letreiro discreto
ao centro: “Família Fonseca” . Dentro da casa ainda permanece um
rapaz em frente a um monitor. Verte mundos através dos dedos longos,
cálidos. Correm pelas teclas sem tropeços. Depois param numa
espécie de leveza contemplativa. Nas divisões mudas irrompem as
fotografias, emolduradas e sempre limpas, da família. Rastos de luz extinta.
« Agora uma pose.
Sem correr.»
Paula limpou, com um ligeiro
gesto, vestígios de suor na testa. Tirou os óculos redondos,
amplos. Alguma coisa parecia faltar. Os óculos ganharam uma espécie
de raiz no rosto; um lugar irrepreensível na expressão. Depois
substituiu o chapéu de pano azul, de onde o cabelo saiu murcho, por
aquele de palha e abas grandes com um friso de flores ao centro.
Iluminou-se.
A menina enfiou um
chapéu azul e amarelo que a protegia do sol. Com um elástico, prendeu-o à volta do queixo. O estado de alma tornara-se uma adivinha.
Era vê-la correr naquelas planícies verdes e ensolaradas de olhos escondidos e tranças pretas a oscilarem ao sabor do vento e do
movimento. No friso amarelo do chapéu de pano estava escrito,a letras manuscritas, Inês L.
( Esta sim, esta não. Esta ( não se veem os olhos):sim ou não?)
"Não há rosto
que não envolva uma paisagem desconhecida, inexplorada, não há
paisagem que não seja povoada por um rosto amado ou sonhado, que não
desenvolva um rosto por vir ou já passado. Que rosto não chamou as
paisagens que amalgamava, o mar e a montanha, que paisagem não
evocou o rosto que a teria completado, que lhe teria fornecido o
complemento inesperado das suas linhas e dos seus traços?"
- Gilles Deleuze
Jan Saudek ( 120km/h)
O rapaz indiano
Tinha um olhar límpido e uma amabilidade despretensiosa.Dava
vontade de ficar
a flutuar naquele rosto. E ser feliz.
"No último
dia em que nos encontrámos, a Cláudia ofereceu-se para me levar ao
carro. Respondi que não era necessário - estava tão perto e, além disso,
eu deveria até andar mais a pé...
Insistiu, «talvez haja pêlo da Lukita no banco», mas acabámos por nos despedir ali.
Na curta distância que me separava do parque onde deixei o "Sapinho", o pensamento nasceu sincopado. As ideias eram simples flashes, sem pressa, sem pressão. E uma das que me acompanhou trazia Lukita.
Lukita.
Não a conheci mas muitas vezes esteve ali ao lado, nestes nossos
encontros sem tempo - mesmo que com os minutos a pingar rapidamente,
quando o toque da campainha comandava os meus passos.
Lukita nunca foi tema de uma nossa conversa. E, ainda assim, estava lá.
Atravessava-as, entrava e saía. A sua presença nunca precisou ser
anunciada. Nem registada.
No Deve & Haver da nossa vida talvez lancemos o que é importante. Nunca o que é vital. Nas Receitas nunca haverá entrada para o afecto, como nas Despesas não há linhas para o vazio que não sabemos dizer.
Dizemos
Vi um pássaro,
acrescentamos
Comi morangos.
Nunca nos lembramos de referir
Respirei.
Também o ar entra e sai e atravessa as nossas conversas."
- Cristina Silveira de Carvalho
# CA 102
Saber olhar para uma
câmara é uma competência. Filipe tem esta marca.Está bem consigo quando olham para ele.
“ Era uma fotografia antiga e eu também estava lá. Era um grupo, talvez no Jardim Botânico - foi aí que te conheci? Mas eu conheci-te no espaço do imaginário, sem realidade plausível para poderes ser real. Mas no imaginário é que é tudo e o real é uma procura para se encontrar com ele. E quando o não encontra há só que desistir - Flora. Onde estás estavas? Oriana estava um pouco de lado. E ria. Sempre a conheci a rir, não deve ter chorado ao nascer. Olhei a foto e todo eu estremeci de uma ternura breve. Tinha um vestido claro lembro-me devia talvez já ser Verão. Então tomou-me o desejo de a isolar, suprimir o excesso à sua volta, mesmo o de mim que também lá estava. Porque tudo era demais para ela só existir num recanto de mim, no absurdo de retornar à vida o que os anos submergiram - quantos anos? Mas isso mesmo - como é fascinante. Quarenta anos talvez? Oriana . Ficção mítica da minha fadiga. Retornar à vida o que ninguém sabe, o que ninguém recorda. E foi como se regressasse ao fim do tempo. À convulsão de mim no extremo da memória. À eternidade que lá mora. Tomei o retrato, estalava já nalguns sítios, levei-o a uma fotografia. O homem olhou-a, não era possível, tinha o seu orgulho profissional. Mas mesmo com defeitos, disse eu. O homem tinha o seu prestígio, eu tinha a minha necessidade. E decerto havia tanta ansiedade no meu pedido. E uns oito dias depois. O homem tirou a fotografia do envelope - Oriana. A sem par. Peguei,guardei-a logo, tudo na vida negava o meu encantamento. Trouxe-a no bolso e quando cheguei a casa. Não queria ver, a sua própria imagem era demais para o absoluto de imaginar. Porque havia nela uma fracção de realidade e tudo me existiu no irreal “
-Vergílio Ferreira, in até ao fim
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sublinhar
8 de Maio de 2015
«Vamos
à rua!?» A resposta era um excesso.)
![]() |
| Adama |
"O
que nos diz a imagem? Diz-nos o que é e não o diz.
Porque
não é uma palavra. Antes um silêncio,
Uma
ausência, um vazio.
O
seu sentido é uma promessa de sentido
Ou o
silêncio do sentido que respira e transparece.
Ausência
na presença plena.
Cintilação
silenciosa e fixa de um olhar sem fim.
Um
olhar vazio de tudo – que vê e não vê
E só
vê porque é cego.
Tudo
nele é visão, mas a visão vê tudo."
António
Ramos Rosa, «Le Domaine Enchanté»
“ If I were just curious, it
would be very hard to say to someone, "I want to come to your house and
have you talk to me and tell me the story of your life." I mean people are
going to say, "You're crazy." Plus they're going to keep mighty guarded.
But the camera is a kind of license. A lot of people, they want to be paid that
much attention and that's a reasonable kind of attention to be paid.”
-Diane
Arbus
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entre aspas
- Agora, meu neto, me chegue aquele álbum.
Aponta um velho álbum de fotografias pousado na poeira do armário. Era ali que, às escondidas, ela vinha tirar vingança do tempo. Naquele livro a Avó visitava lembranças, doces revivências.
Mas quando o álbum se abre em seu colo eu reparo, espantado, que não há fotografia nenhuma. As páginas de desbotada cartolina estão vazias. Ainda se notam as marcas onde, antes, estiveram coladas fotos.
- Vá. Sente aqui que eu lhe mostro.
Finjo que acompanho, cúmplice da mentira.
- Está ver aqui seu pai, tão novo, tão clarinho até parece mulato?
E vai repassando as folhas vazias, com aqueles seus dedos sem aptidão, a voz num fio como se não quisesse despertar os fotografados.
- Aqui, veja bem, aqui está sua mãe. E olhe nesta, você, tão pequeninho! Vê como está bonita consigo no colo?
Me comovo, tal é a convicção que deitava em suas visões, a ponto de meus dedos serem chamados a tocar o velho álbum. Mas Dulcineusa corrige-me.
- Não passe a mão pelas fotos que se estragam. Elas são o contrário de nós: apagam-se quando recebem carícias.
Dulcineusa queixa-se que ela nunca aparece em nenhuma foto. Sem remorso, empurro mais longe a ilusão. Afinal, a fotografia é sempre uma mentira. Tudo na vida está acontecendo por repetida vez.
- Engano seu. Veja esta foto, aqui está a Avó.
- Onde? Aqui no meio desta gente toda?
- Sim, Avó. É a senhora aqui de vestido branco.
- Era uma festa? Parece uma festa.
- Era a festa de aniversário da Avó.
Vou ganhando coragem, quase acreditando naquela falsidade.
- Não me lembro que me tivessem feito uma festa…
- E aqui, veja aqui, é o Avô lhe entregando uma prenda.
- Mostre! Que prenda é essa, afinal?
- É um anel, Avó. Veja bem, como brilha este anel!
Dulcineusa fixa a inexistente foto de ângulos diferentes. Depois, contempla longamente as mãos como se as comparasse com a imagem ou nelas se lembrasse de um outro tempo. […]
Quem parte de um lugar tão pequeno, mesmo que volte, nunca retorna. […]
Os lugares não se encontram, constroem-se. […]
O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora.”
Mia Couto, in Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra
(Ele prestava-lhe uma
atenção viva ( em silêncio). Ela envolvia-o com uma
expressividade enriquecida de sorrisos. Deixava voar os gestos. Não
era propriamente um muro o que os separava. Talvez um véu. A força
da imagem estava numa certa ambivalência, uma intimidade smi
emcoberta.)
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entre parêntesis
"Vejo, e já é muito"
"Ninguém compreende o outro. Somos, como disse o poeta, ilhas no mar da vida; corre entre nós o mar que nos define e separa. Por mais que uma alma se esforce por saber o que é outra alma, não saberá senão o que lhe diga uma palavra - sombra disforme no chão do seu entendimento.
Amo as expressões porque não sei nada do que exprimem. Sou como o mestre de Santa Marta: contento-me com o que me é dado. Vejo, e já é muito. Quem é capaz de entender?
Talvez seja por este cepticismo do inteligível que eu encaro de igual modo uma árvore e uma cara, um cartaz e um sorriso. (Tudo é natural, tudo artificial, tudo igual.)"
Amo as expressões porque não sei nada do que exprimem. Sou como o mestre de Santa Marta: contento-me com o que me é dado. Vejo, e já é muito. Quem é capaz de entender?
Talvez seja por este cepticismo do inteligível que eu encaro de igual modo uma árvore e uma cara, um cartaz e um sorriso. (Tudo é natural, tudo artificial, tudo igual.)"
-Bernardo Soares, in livro do desassossego
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entre aspas
Os melhores retratos
de Tamsin davam-se no intervalo da necessidade de ficar bem na
fotografia e no receio que isso não acontecesse, com todos os
fantasmas interiores a açambarcar as expressões e os gestos.
Cláudia volta a insistir nos grandes planos onde tudo isto ganhava
relevo ( « a fotografia é implacável», o Miguel sempre disse) .
Editou apenas o que ficou desse intervalo. Como um momento em que os pés
descansam dos saltos e o corpo respira livre de espartilhos. Há uma
beleza não fabricada que tem um cair despojado, despretensioso e livre.
Dos que hão sempre de ficar estranhos…
O único olhar sem interesse recebido no acaso
Da extrangeira rápida…
O olhar de interesse da creança trazida pela mão
Da mãe distraida…
As palavras de episodio trocadas
Com o viajante episódico
Na episódica viagem…
Grandes maguas de todas as coisas serem bocados…
Caminho sem fim…"
Álvaro de Campos, in livro de versos
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sublinar
“Nunca
nos podemos banhar duas vezes na água do mesmo rio “( Heraclito).
A fotografia fala-nos nisto: do extraordinário e da vida que
corre e a correr renova e desfaz…
“O
céu e a terra passarão…” ( Mateus 24:35) mas o extraordinário
reacender-se-á inesperadamente. O rosto, o gesto, a assinatura são
só os lugares onde se mostrou (e voou).
I. exibe com satisfação as fotografias da filha.
B. é um espanto. Conseguimos prová-lo. A luz enamorou-se dela.O tom de
pele e as cores do vestido naquele fundo assentaram na perfeição (seria
sorte?). E depois o sorriso, ao rubro, com a alegria que as mães gostam de ver nos
filhos. A cara toda no enquadramento. Onde está a fotógrafa? Tornou-se uma raiz esquecida. Isto sucede porque carregar num botão e copiar a realidade
em fragmentos parece coisa de crianças. Só o olhar treinado e atento vê no
referente uma espécie de autorretrato indireto.O retrato técnico é uma relação do fotógrafo com o modelo que a expressão tantas vezes sintetiza. Depois entra sempre o imprevisto. Fotografar é ( também) estar alerta.
- Qual é a tua profissão?
- Tiro fotografias.
No dia 15 de Abril
Laurinha completou 65 primaveras. Cláudia coroou-a de flores de
tonalidades rosa e lilás. Percorreu o colégio a fazer poses. No
rosto trazia vestigios do caminho percorrido, mas mantinha a expressão fresca da primeira vida. À sua passagem os miúdos
falicitavam-na com vivacidade. As professoras, Rita e Inês, ao fundo
do corredor, acelararam o passo para colar os seus sorrisos ao dela ( clic:
Laurinha com a grinalda de flores no meio!). Mesmo sabendo qual será
o presente de Cláudia – depois das velas apagadas, a maquilhagem
desfeita e os olhos a retomar o brando brilho quotiiano - , as
fotografias são sempre uma surpresa.
Na Avenida Conde de
Valbom uma mulher abre a janela. Os pombos, aos atropelos, debicam
grãos no parapeito. Na agitação de asas e bicos, quase lhe picam
os dedos. A senhora parecia ter acabado de se levantar do leito da
morte, pelos sulcos fundos à volta dos olhos e a pele esvaziada de
vida. Quando fecha a janela e as aves procuram outros alvos, a sombra
intenssifica-se. Logo ao virar da esquina, na Avenida Duque de
Valongo, o gerente de uma pastelaria - camisa aos quadrados, volume a
romper as marcas - prepara as mesas ao ar livre. Tenta
afastar com mão firme e rubusta os pombos assustadiços. Ainda
assim, não resistem ao tentador desafio de uma migalha. Entre o sol
e as nuvens não houve nada. A manhã ergueu-se com uma luz
irrepreencivel. Cláudia entrou no colégio. Procurou domesticar a
claridade excessiva e traduzir nos rostos de Madalena, Marina e
Leonor a alegria - ainda sem grandes motivos.
Uma
chávena
de café vazia na extremidade de uma mesa, um pau de canela, um
pacote de açucar amarrotado. Vai-se desfazendo a agitação urbana.
Homens de fato e gravata com o tom cinzento da mesas, dispersam-se,
abandonam a esplanada.
As nuvens anunciam mais chuva. A Primavera anda pouco convicta.
Deixa-se rir numa claridade inviolável. Depois de almoço, Afonso
entrega-se à fotografia com uma abertura semelhante a esse riso.
Olhos azuis, dentinho a aparecer em todas as expressões, vestígios
de suor e fôlego no rosto. Afonso está crescido. Continua a frequentar o colégio. Agora no
primeiro ano.
Janeiro de 2015
«
Olha que giro» . A exclamação é acompanha de um clique.
Logo a seguir outro. Mais uns tantos. Todos no mesmo ângulo, a
incidirem no mesmo manequim – representação do corpo
expedicionário português na primeira guerra mundial. Uma massa de
adolescentes invade o Átrio Principal do Palácio de São Bento onde
decorre uma exposição sobre a participação de Portugal na
Grande Guerra.Perturbam o ócio das horas. Partilham um
maravilhamento todo superfície e um interesse de fingir. E aí está
uma selfie ao lado do busto de mármore de Anselmo
Braamcamp Freire. (Não chegaram a saber quem foi). « Vem agora tu
para aqui»(de tanto vermos parece que deixámos de ver). Outro
estalar de interruptor, tão mecânico e instintivo como levar a mão
ao nariz . Este a uma pequena escultura dos soldados em África.( Não
por o objeto em si, nem por a cultura, muito menos pela
fotografia, mas porque sim).
Na
verdade, também nunca gostei de museus. Nunca vi nem ouvi vida ali.
Clarice Lispector vs Claudia Andujar
![]() | |||
“Fui
à casa de Clarice Lispector para fotografá-la a pedido da
revista Claudia,
que naquele ano de 1961 preparava uma reportagem sobre a escritora.
Pouco me lembro daquele dia perdido no tempo, mas há detalhes que
guardo para sempre.
Ninguém
da revista me acompanhava e fui recebida com muita simpatia por
aquela mulher linda, vestida com simplicidade e elegância.
Conversamos
pouco. Quis deixá-la à vontade para a foto, e perguntei como
gostaria de se posicionar. Se não me engano, a ideia de sentar
diante da máquina de escrever e começar a trabalhar em algum texto
foi de Clarice. E então ela se deixou absorver pelo ato de escrever,
completamente entregue, sem quase notar minha presença.”
in,
Blogue da Coracnaify
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"- Estão aqui as fotografias que me emprestou. Onde as ponho?
Na semana anterior, Dona Munda mostrou-lhe o álbum de família. Espantoso como ela,na sua juventude era parecida com a filha Deolinda. O médico não saberia distinguir entre uma e outra. Essa semelhança impressionou-o a ponto de o encorajar a abdicar do distanciado respeito que ele sempre preservou. E foi por isso que ele pediu as fotografias de empréstimo. Dona Munda reagiu com a mesma indolência com que agora sugere que o médico tome posse dessas lembranças.
- Leve-as, fique com elas , meu caro Doutor. as fotos fazem de parentes peças de mobiliário.
- Ora. Dona Munda...
- Além disso estas fotos não me pertencem.
- Não entendi: essas fotos não são suas?
- Eu é que não sou dessas fotos. Tudo isso aí é de um tempo que já morreu, a gente fica menos vivo só de entrar nessas lembranças."
- Mia Couto, in venenos de deus,remédios do diabo
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(Ao tirar o bolo de
chocolate do forno, a mãe torcia o nariz. Depois de o
desenformar, abanou a cabeça com ar desconsolado. Sempre que os bolos
não apresentam um aspeto franco, compara-os ao bolo da Heidi. De tão
duro, virou tambor.Não será certamente um instrumento
de percussão para o meu irmão.)
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entre parêntesis
O
violino das quatro Estações de Vivaldi ganhava corpo na sala de
aula quase vazia. O timbre avançava brilhante, agudo. Depois
amenizava. Tinha a mesma qualidade límpida da manhã. A educadora
Nucha sentada numa pequena cadeira, mão no peito,olhos lacrimosos e
um copo de água nas mãos, não aguentou até ao final do intervalo
para abandonar o local. As duas funcionárias que a tentavam auxiliar
mostravam uma atenção adulta, pouco expressiva.
Depois
de almoço as cadeias foram ocupadas pelas crianças que desenhavam o
fim-de-semana passado por sugestão de João, o
auxiliar. Tomás sobrepunha-se à música de fundo. Papagueava sem
freio. Era o centro das atenções na mesa onde se encontrava com
mais cinco crianças. Arranhava uma cantiga de Anselmo Ralph, depois
outra do género, uma lengalenga dos macacos nas paredes e outras
coisas mais. Ainda assim, o desenho surgia
resoluto. Cláudia captava-lhe os olhos grandes, expressivos,
emoldurados num corte de cabelo com uma franja linear. Quando os
aliviou
da
folha,
numa fração
de segundo do
seu
silêncio, ficou na fotografia a desenhar. E a sinfonia de Vivaldi
prosseguia( prossegue,
talvez) inabalável no seu curso circular, mais ou menos sumida. E
as crianças vêm e vão.
Desfazem-se
da
infância; mudam de pele.
Poderia
dizer-vos: amo-vos como sois. Nesse jeito desenfreado de correr atrás
de uma bola ( Olha o João. Está à defesa na baliza com uma sandes
na mão!), no modo tímido, ainda que sinuoso de olhar ( a Madalena e
a Cláudia nas laterais. Cumplicidade chegada, fotogenia no tom).
“Somos feitos da mesma matéria dos sonhos”(
Shakespeare)–incrivelmente belos, passageiros,um tanto irreais. Não
estou aqui para vos educar (que profissão inútil!). Simplesmente
para vos apreciar e conferir valor:magros, gordos, brancos, negros.
Todos os modelos estão bem.” Toda a gente é interessante se a
gente souber ver toda a gente.” ( Álvaro de Campos)
O olhar é um pensamento
Tudo
assalta tudo,e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora
-não posso escrever mais alto
transmitem-se,interiores,as formas.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora
-não posso escrever mais alto
transmitem-se,interiores,as formas.
-Helberto Helder
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“(…)A transcendência da realidade começa na fotografia e termina na palavra. Porque é que ao olhares um objeto conhecido e vês a sua fotografia, olhas esta com um sentir diferente? Porque é que o real e a sua pressuposta imagem fotográfica têm de permeio algo de estranho ou surpreendente? Há já aí uma transposição para um outro domínio em que o imaginário obscuramente se nos abre, como creio já ter dito. Que todavia se leia o que o escritor viu nesse real fotografado e saberemos como a própria imagem se transfigurou. E é o que se inicia já na representação pictórica do mesmo real, por mais 'realista' que ela for. Mas a palavra transpõe-no para o máximo de irrealização, porque é necessário reconstruí-lo e fixá-lo no puro imaginar. Do real à palavra vai uma distância infinita. É a que vai da bruteza ou confusão à essencialidade oculta, a que vai do ver material ao anônimo ou imaginário aberto por um ver subjetivo que lhe dá uma significação. O real está do lado das coisas. O imaginário, do lado do homem. Mas o real não existe, se o homem o não o fizer existir."
Vergilio Fereira in Pensar
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Este ano o professor Miguel tem em mãos o primeiro ano de escolaridade. Essa matéria plástica, dúctil, recetiva. Quando eleva os olhos por cima dos óculos retangulares, sem aros, o rosto rasga-se com a mesma suavidade com que prenuncia as palavras “menino”, “menina” ou dá os bons-dias. E lá está o pequeno Diogo na primeira fila. Olhos muito abertos, lábios contidos, perfeitamente esculpidos, numa pele que parece porcelana onde a dor ainda não é possível. Logo ao lado dele, a fazer contraste, está a Madalena. Parece já ter vivido centenas de vidas até chegar ali. Responde a tudo o que lhe perguntam, mas deixa a expressão desmaiar numa espécie de tédio. Mais a meio, a Maria Teresa. Teresa não basta, muito menos Teresinha. Quando lhe perguntam como se chama, ela diz um nome longo como um comboio de palavras. Depois,revira com frequência os olhos para os lados e para cima (por este andar arrisca-se a vir sofrer de vertigens!). Ao fundo, na última fila, temos o Rodrigo, o miúdo da afiadeira. Passa as aulas com a obsessão pela agudeza, por isso se atrasa a concluir as fichas. Afia, afia, afia. Todos os dias derrete um lápis. Já os colegas tinham feito os círculos à volta das letras, ainda Rodrigo afiava um lápis que já aí a meio. Teve que ser a Cláudia a desengatar outro para o miúdo terminar a tempo.
«São vinte cinco, caramba, vinte e cinco!» Olha agora o professor com os olhos bem centrados nas lentes e a caneta azul de quadro branco em cujas mãos passa uma sensibilidade fina.
"Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos.
O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exactamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.
Não há dois sorrisos iguais. Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso.
O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso."
O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exactamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.
Não há dois sorrisos iguais. Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso.
O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso."
- José Saramago
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