Imagem Veloz

Entre as imagens e as palavras correm rumores


(Imagem : Chris Marker)






Havia nela uma entrega comovente perante a câmara ou perante a pessoa que estava por trás. Esta atitude é a grande recompensa de andar por aí a fotografar  toda a gente.
Atrás da bola , Afonso mostrava garras e asas. O rosto ardia em fogo, escorria suor. A t- shirt da Star Wars, o corte de cabelo espetado,desigual, pontuavam a imagem afirmativa na perfeição. Francisco, revestido de ténues barreiras e esconderijos, fazia-lhe frente com uma certa cerimónia no tom.

Dá tudo, antes que a luz desvaneça e o retrato se firme tão terno quanto triste.
Nenhuma forma de amor tem tanto respeito pela liberdade do outro como a amizade."

-Adama vs Francesco Alberoni





«Há um queijo que nunca ninguém abriu. Está por encetar. E sabes porquê, minha menina? Por que só seria aberto por quem se tivesse casado e nunca se tivesse arrependido. Como isto nunca sucedeu com ninguém, está até hoje por encetar . » Eram estas as palavras da avó a Ilusinda perante uma lua redonda e grande. Nessa altura os olhos da jovem ainda tinham os matizes de todos os sonhos e a esperança de ser ela a cortar a primeira fatia, era um horizonte de motivação (« Eu nunca me irei arrepender!»). Em 1971 casou. Não sei se chegou a abrir o queijo, mas continua casada, teve um filho e três filhas que casaram também. A última, a mais nova, chama-se Susana e, tal como ela, tem o sonho e o fôlego para sempre prosseguir.



Uma noiva é uma espécie de princesa: pele uniforme, reflexos, fragrâncias, transparências. Nos olhos, o brilho das estrelas. O sorriso pode apresentar riquíssimas nuances, é comum uma lágrima ao canto do olho e até turbilhões encobertos. E se o Pai Natal vem com a neve, as noivas surgem, muitas vezes, nos picos do sol do meio-dia. Esta não foi excepção: dia claro; Agosto à vista. Por entre as mãos tão sólidas quanto macias dos pais, ei-la como quem dá os primeiros passos na outra margem da vida. Muitas coisas mudaram à superfície do mundo, mas a noiva continua a ir de branco e o sonho de uma lua grande e próspera arrasta sementes. Colocou-se ao lado do noivo cujo alinhamento recto e emoções contidas lhe reforçaram as características (“Sim, quero a liberdade de subir ao teu lado montanhas escarpadas, ter a tua mão nos redemoinhos do vento ou no sossego de uma paisagem quieta.“ “Algures, para lá do certo e do errado, há um jardim, lá me encontrarei contigo” - Rumi).


O nome dela: Susana (Susannah: “lírio”, “açucena”, “pura”); o dele: Eduardo (Hadward: “rico”, “próspero”, “guardião de riquezas”). Nisto entra em cena Tomás (franzino, vestido de fato e gravata como gente crescida, um sorriso claro a rasgar-lhe o rosto fino). Bem podia ser o guardião dos anéis, aquele que fomenta os elos. Algures, juntamente com as princesas mais pequenas (Amália, Rute, Mira e Francisca), aquelas que andam com as Primaveras e a frescura de todos os inícios, estava Maria. Os quatro já fazem uma constelação. Ou uma equipa.
“ Eu não penso: sonho.”

Maria Rita ( aquela menina de sorriso ao rubro. Nos lábios, nos olhos, na pele.)

A BRUXA COR DE ROSA

 
Enquanto a maioria dos meninos desenhavam a bruxa com o tradicional chapéu, vassoura, luas e vestido preto − muitos deles exibindo desenhos ricos em pormenores e sofisticados −, Kelson, o miúdo que tem a pele cor do chocolate e nos olhos o brilho das estrelas, transformou alguns aspetos do estereotipo em poucos minutos e de acordo com as qualidades vivas do momento: deu à bruxa um cabelo cor-de-rosa, vestiu-a de noiva (ele é que disse), no pensamento colocou-lhe uma bailarina e aproveitou para declarar o seu amor pela professora e pela rapariga que por lá andava a tirar fotografias a tudo e a todos. Ficou como se pode ver, não muito perfeito mas espontâneo - próprio daqueles para quem a vida ainda se come quente e não precisa de receitas.

“ Há cinquenta anos. Há meio século. É já tempo bastante para a História se mover. E todavia não é bastante para se mover em nós um sinal profundo de vida. Um encontro, um elogio, um vexame. Tudo tão pouco. E tanto. Uma fotografia inesperada de alguém que amámos e morreu e desapareceu no montão de coisas que foram e nos aconteceram. E de súbito uma absurda irrealidade começa a existir numa pancada funda na alma. E um encantamento sem significação. E uma melancolia grave como um horizonte longínquo. E um choro para dentro, estúpido e terno.”

- Vergílio Ferreira, in Pensar

Melita, Catarina e Sóninha

Ficaram os seus olhares brancos a flutuar no escuro. Havia no rosto das três um principio comum. Uma espécie de claridade não corrompida a sobressair no negro da pele.  
Na História dos Três Porquinhos, Wagner era o Lobo Mau. Começara por encher as bochechas de ar, ajustou os lábios fartos ao microfone e suprou. Ficou a um passo de levar a platéia pelos ares. E a fotógrafa andava por lá. Circundava o caos da direita para a esquerda, subiu para cima da mesa (dizia "reservado", mas enfim); experimentou um plano contrapicado, aberturas de diafragma maiores ... Não foi desta que o Lobo Mau teve uma fotografia digna de moldura. Depois baixaram os  smartphones, os iphones, os tablets, as câmaras compactas, as teleobjectivas e todas essas extensões, mais ou menos sofisticadas, do olhar. As mãos ficaram livres para aplaudir. Um sorriso de mãe — daqueles que deixa a alma ao rubro nos olhos — enche o espaço.  Como estava fora de cena e não fazia parte do assunto principal, ninguém o quis destacar.
A beleza é um irreal em digressão. Debaixo daquele chapéu deu o seu melhor . Partiu momentos depois.
Robert Doisneau

Deixou a velha vida em busca de si.
Saudade, lágrima.
Uma foto. Sorriu.
Trazia consigo os que amava. 

- Edson Rossatto, in cem toques cravados 

“E a fadiga. E o medo. E ir dar à aparição de ti. Então devagar. Tenho o envelope na mão, devagar tiro lento devagar, a fotografia vem aparecendo à luz. Esplendorosa ovante, a auréola de riso para fora do riso, está lá .Olho-te intensamente. Olho-te para o lado de lá do que está, porque não está lá o que procuro que é o que procuro? É estranho, que é que? porque não é isso. Como um muro a imagem, embato contra ela e o que estremece em mim hesita desorientado como um animal encurralado. Há um riso e vejo-o muito bem. Devia estar vento, o teu cabelo desfraldado. Vê-se-te uma orelha, e a maciez da tua pele, tocar-te. Mas estás fora de lá estar. Há assim um fuga entre a hesitação de imaginar-te e a travagem de estar ali no teu limite. Mas a imaginação é mais forte, transborda para além de ti. Depois volto a ver-te para tudo ser real. Mas não é possível haver esse real no que está em mim, sofro. Como num mistério, não sei , no sagrado. Em toda a beleza. Não se pode ter, a verdade dela está muito mais longe do que ela, quando se chega já não está lá, é assim. ”

- Vergílio Ferreira, in até ao fim
“Da sala de jantar passa-se para uma sala quadrada onde há uma porta que dá diretamente para o patamar de pedra que confina com a duna. Quem vem de fora sacode os pés antes de entrar para não encher a casa de areia. Ali as cadeiras de vime pintadas de castanho quase preto fazem um círculo à roda da mesa baixa onde o cigarro poisado no cinzento arde sozinho ao lado da jarra cheia de dálias vermelhas. Nesta sala reinam as fotografias.
 Cercadas pela moldura de prata ora ovais ora redondas ora retangulares as fotografias estabelecem, dentro do tempo, outro tempo, e, dentro da casa outras casas e jardins. Verdes jardins sombrios e secretos cujo sussurrar se funde no silêncio. “




- Sophia de Mello Breyner Andresen, A Casa do Mar, in Histórias da Terra e do Mar


No n.º22 r/c esq. de uma rua como tantas ruas, na porta de entrada, um letreiro discreto ao centro: “Família Fonseca” . Dentro da casa ainda permanece um rapaz em frente a um monitor. Verte mundos através dos dedos longos, cálidos. Correm pelas teclas sem tropeços. Depois param numa espécie de leveza contemplativa. Nas divisões mudas irrompem as fotografias, emolduradas e sempre limpas, da família. Rastos de luz extinta.

« Agora uma pose. Sem correr.»



Paula limpou, com um ligeiro gesto, vestígios de suor na  testa. Tirou os óculos redondos, amplos. Alguma coisa parecia faltar. Os óculos ganharam uma espécie de raiz no rosto; um lugar irrepreensível na expressão. Depois substituiu o chapéu de pano azul, de onde o cabelo saiu murcho, por aquele de palha e abas grandes com um friso de flores ao centro. Iluminou-se.


Um pão numa mão; na outra, uma bolacha. Depois é só esticar os lábios e mostrar os dentes ( sorriso pepsodent). Só faltava um elemento de ligação para mostrar o invisível no que nos é dado a ver (e envolver para tornar mais espesso) .