« Cutchi cutchi!». É Constança de rosto arejado a desafiar a câmara. Esconde-se por
baixo das mesas. Depois espreita em estado de alerta. Volta com
efusividade à correria. Dá voltas à sala em circulo. Por fim,
lança-se exausta para cima de um colchão colorido; esconde o rosto
por entre as mãos pequenas, ainda terras. «Cutchi cutchi! » -
agora Cláudia. Ao abrir a mãos deixa-se rir e a fotografia
acontece. Por vezes o retrato é como correr atrás de alguém que,
ao ser apanhada, nos deixa com o casaco que trazia vestido nas mãos e
segue correndo.
Infelizmente, falharam as fotografias,
e, assim, não me poderás ver diante do asceta
de roupa vermelha, à sombra do arco.
E assim não poderá ler na sua face:
"Que dizer, para que se entendesse...?
Nem poderás ler na minha:
"Tudo entendido. Não se precisa dizer nada."
Mas as fotografias falharam.
E aquele momento já fugiu para trás, no caminho do tempo.
Aquelas duas sombras foram ficando cada vez mais longe.
A compreensão, que perdura, é sem retrato.
Cecília Meireles, in Poesia Completa
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sblinhar
(A porta do elevador do Centro Comercial Colombo abre-se. Movimento repetido, na ordem do quotidiano. Por ela irrompe uma mulher mestiça - radiosa ( «será aqui o paraíso? ») . Levava um recém nascido num berço, a pérola preciosa que lhe iluminava o sorriso. Atrás dela, no elevador, permanecia outra mulher. Também sorria, como se tivesse ficado nela um eco sumido desse júbilo pela vida.)
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entre parêntesis
#AF 198
Beni ia muito
chic no dia das fotografias. Movia-se com cuidado, não fosse ela
romper o molde. De sorrisos, apenas um cheirinho. Cláudia
esperava que a menina saísse. Quando pôs aquele chapéu de palha grande, inclinou os olhos para cima e voou - leve. O retrato foi certo.
( para que serve um
chapéu senão para ganhar asas?)
#
CM 317
Para
as crianças o mundo dos adultos é uma aspiração; por isso,
brincam-no.
Leão, o miúdo negro de quatro anos, pôs os enormes óculos de sol que quase lhe cobriam o rosto e com uma mala de rodas percorria a sala de aula (iria tomar o avião!?). Lorena, a menina com um sorriso sempre pronto, aconchega o Bebé que Ri no berço com uma colchinha de lã. Cláudia, aquela que espreita o mundo por trás da câmara, desafia-os a brincar à vida real e faz uma fotografia do casal: o pai, a mãe e o Bebé que Ri . Mas depois do disparo Leão achou que não queria ser o pai, antes o irmão mais velho. Tivemos de tirar outra fotografia e arranjar outro pai com a pele branca como a mãe e o bebé. Veio depois Inês a dizer-se irmã e Matilde com um avental e uma colher de pau na mão apresentando-se como a cozinheira. Na fotografia ficaram uma família feliz.
Leão, o miúdo negro de quatro anos, pôs os enormes óculos de sol que quase lhe cobriam o rosto e com uma mala de rodas percorria a sala de aula (iria tomar o avião!?). Lorena, a menina com um sorriso sempre pronto, aconchega o Bebé que Ri no berço com uma colchinha de lã. Cláudia, aquela que espreita o mundo por trás da câmara, desafia-os a brincar à vida real e faz uma fotografia do casal: o pai, a mãe e o Bebé que Ri . Mas depois do disparo Leão achou que não queria ser o pai, antes o irmão mais velho. Tivemos de tirar outra fotografia e arranjar outro pai com a pele branca como a mãe e o bebé. Veio depois Inês a dizer-se irmã e Matilde com um avental e uma colher de pau na mão apresentando-se como a cozinheira. Na fotografia ficaram uma família feliz.
#AF
2468
Na
secretária dos quatro meninos que apreendiam mais lentamente as
lições, Joana empatava-se nas letras, baralhava-se nos cálculos,
arrefecia no pensamento abstrato. Com uma das faces apoiadas na mão
esquerda, parecia adormecer um dos lados de si. Com a mão direita,
fazia deslizar o lápis a custo. Carregava tanto no traço que, ao
apagar, esborratava a folha. Quando levantava os olhos – enormes –
das letras nascia a manhã. Para o enquadramento estava sempre a
jeito e entusiasmava-se a reforçar ângulos do corpo para a
fotografia, dando-se a múltiplas expressões convictas. Creio que
Joana tem um dom. Talvez pouco percebível; provavelmente nada
importante para a configuração geral do pensamento. Muito menos
para o programa curricular.
Almoçageme, Julho de 2014
1.
Volto a percorrer o caminho que conduz ao mar. A casa onde faço uma paragem continua com as portas e as janelas abertas. Sempre foi assim. A luz de Julho abranda ao entardecer. Percebe-se o tilintar de louças e talheres nas casas da vizinhança que habitualmente se recolhe quando o sol se desfaz no mar. Destaca-se a vida dos pássaros e dos insetos numa profusão de sons. Afasto as fitas da porta de entrada quando a voz, um tanto enfraquecida, de Leonor me convida a entrar. Na cozinha, que também é sala e receção, salta-me à vista o vermelho das cerejas num prato em cima da mesa e aquele aconchego de um lar. No quarto ao lado, a amiga que já não via há mais de dois anos levanta-se da cama, a custo, para me receber. A largura e o vigor do rosto de outrora pareciam ter sido aspirados pela quimioterapia. Emagreceu a olhos vistos. Ainda assim, estava incrivelmente bela e a sua presença era um eco de detalhes espalhados pela casa. Vestia-se de azul vivo, puríssimo. A mesma cor que nos seus olhos esmorecia. Voltou a deitar-se na cama, sobre uma colcha cinzenta, aveludada, com almofadas enormes por trás. Contrariamente ao estado débil, ao meio envolvente, havia naquela imagem algo solene. O gato cinzento e felpudo, sossegado aos pés da cama, mantinha com ela, pelo lado mais nobre, uma qualquer semelhança que não sei explicar. Falava com voz cansada do choque do destino, ainda assim da aceitação, do casamento, há um mês, com José − o companheiro de há vinte anos. Falar dele era dizer algo de um amor maduro, franco, uma valentia que toca o mais fundo de nós, ainda que não puxe manifestos aplausos nem dê para grandes shows. Numa das prateleiras desperta-me o seu retrato a preto e branco, com 16 anos, num tamanho mais destacado. Pelo enquadramento, pela qualidade da impressão, pela expressão segura de traços bem resolvidos. E recordei a história (que me contou há uns anos) de uma paixão incandescente, um casamento emergente e tão efémero e dos sonhos que derreteram ao aproximar-se do real. O meu irmão telefona. Talvez tivesse achado estranha a cadência lenta da minha voz. Vive muitas vezes num frenesim. Espera respostas breves: numa só palavra ( de preferência), duas, no máximo três. Foge para a frente e põe o som alto demais para acreditar melhor que ainda há algo a segurar.
2.
A chegada de José anuncia-se pela aproximação de um carro. Leonor sugere-me que o vá receber. Havia de gostar de me ver. E sim, dá-me um abraço daqueles grandes que me fazem desprender os calcanhares do chão. Reparo que o seu cabelo e a barba ganharam branco em vastidão. Trazia a piza que a mulher lhe pediu e que saboreou no quarto, no descanso das palavras. Partilho com ele, na divisão ao lado, aquela sopa que ainda tem cheiro, cor e sabor; o chá de ervas do lugar, o pão caseiro, o queijo (foi como se comesse) e as cerejas da cor do verniz. Nas suas palavras, mais uma vez a imagem de Leonor se impôs. Falar dela era dizer o imenso . Era exaltar a mulher amante, mãe, raiz. Perdê-la era largar um pedaço, talvez essencial, de si. Nisto o Pedro telefona. Devia ter adormecido quando há umas horas tentei comunicar-lhe que estava na zona, propondo ir ver o mar. Falava com entusiasmo na voz ao dizer que Lídia vai voltar – quinta-feira, depois de um ano na China. Então Leonor ganha fôlego. Traz o prato agora vazio. Abraça José pelas costas, numa doçura que me comove e chama-o Meu Amor.
Fez-se noite. Acabei por já não ir ver o mar.
1.
Volto a percorrer o caminho que conduz ao mar. A casa onde faço uma paragem continua com as portas e as janelas abertas. Sempre foi assim. A luz de Julho abranda ao entardecer. Percebe-se o tilintar de louças e talheres nas casas da vizinhança que habitualmente se recolhe quando o sol se desfaz no mar. Destaca-se a vida dos pássaros e dos insetos numa profusão de sons. Afasto as fitas da porta de entrada quando a voz, um tanto enfraquecida, de Leonor me convida a entrar. Na cozinha, que também é sala e receção, salta-me à vista o vermelho das cerejas num prato em cima da mesa e aquele aconchego de um lar. No quarto ao lado, a amiga que já não via há mais de dois anos levanta-se da cama, a custo, para me receber. A largura e o vigor do rosto de outrora pareciam ter sido aspirados pela quimioterapia. Emagreceu a olhos vistos. Ainda assim, estava incrivelmente bela e a sua presença era um eco de detalhes espalhados pela casa. Vestia-se de azul vivo, puríssimo. A mesma cor que nos seus olhos esmorecia. Voltou a deitar-se na cama, sobre uma colcha cinzenta, aveludada, com almofadas enormes por trás. Contrariamente ao estado débil, ao meio envolvente, havia naquela imagem algo solene. O gato cinzento e felpudo, sossegado aos pés da cama, mantinha com ela, pelo lado mais nobre, uma qualquer semelhança que não sei explicar. Falava com voz cansada do choque do destino, ainda assim da aceitação, do casamento, há um mês, com José − o companheiro de há vinte anos. Falar dele era dizer algo de um amor maduro, franco, uma valentia que toca o mais fundo de nós, ainda que não puxe manifestos aplausos nem dê para grandes shows. Numa das prateleiras desperta-me o seu retrato a preto e branco, com 16 anos, num tamanho mais destacado. Pelo enquadramento, pela qualidade da impressão, pela expressão segura de traços bem resolvidos. E recordei a história (que me contou há uns anos) de uma paixão incandescente, um casamento emergente e tão efémero e dos sonhos que derreteram ao aproximar-se do real. O meu irmão telefona. Talvez tivesse achado estranha a cadência lenta da minha voz. Vive muitas vezes num frenesim. Espera respostas breves: numa só palavra ( de preferência), duas, no máximo três. Foge para a frente e põe o som alto demais para acreditar melhor que ainda há algo a segurar.
2.
A chegada de José anuncia-se pela aproximação de um carro. Leonor sugere-me que o vá receber. Havia de gostar de me ver. E sim, dá-me um abraço daqueles grandes que me fazem desprender os calcanhares do chão. Reparo que o seu cabelo e a barba ganharam branco em vastidão. Trazia a piza que a mulher lhe pediu e que saboreou no quarto, no descanso das palavras. Partilho com ele, na divisão ao lado, aquela sopa que ainda tem cheiro, cor e sabor; o chá de ervas do lugar, o pão caseiro, o queijo (foi como se comesse) e as cerejas da cor do verniz. Nas suas palavras, mais uma vez a imagem de Leonor se impôs. Falar dela era dizer o imenso . Era exaltar a mulher amante, mãe, raiz. Perdê-la era largar um pedaço, talvez essencial, de si. Nisto o Pedro telefona. Devia ter adormecido quando há umas horas tentei comunicar-lhe que estava na zona, propondo ir ver o mar. Falava com entusiasmo na voz ao dizer que Lídia vai voltar – quinta-feira, depois de um ano na China. Então Leonor ganha fôlego. Traz o prato agora vazio. Abraça José pelas costas, numa doçura que me comove e chama-o Meu Amor.
Fez-se noite. Acabei por já não ir ver o mar.
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Quando a Mãe veste aquele casaco comprido, muito quente, fica com a sensação de estar a carregar o mundo. Ao entrar no comboio libertou-se dele sem hesitação. Da janela semi embaciada da carruagem ajustava o rosto a uma mancha translucida. Prestes a choramingar, acenava com a mão. Do lado de fora eu ria. Fazia o gesto de quem segura uma câmara: enquadrar, focalizar, guardar. Na carruagem ao lado, uma senhora observava-me em jeito de sorrir. Já Diane Arbus dizia que as suas melhores fotografias foram as que não chegou a concretizar.
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