Uma
chávena
de café vazia na extremidade de uma mesa, um pau de canela, um
pacote de açucar amarrotado. Vai-se desfazendo a agitação urbana.
Homens de fato e gravata com o tom cinzento da mesas, dispersam-se,
abandonam a esplanada.
As nuvens anunciam mais chuva. A Primavera anda pouco convicta.
Deixa-se rir numa claridade inviolável. Depois de almoço, Afonso
entrega-se à fotografia com uma abertura semelhante a esse riso.
Olhos azuis, dentinho a aparecer em todas as expressões, vestígios
de suor e fôlego no rosto. Afonso está crescido. Continua a frequentar o colégio. Agora no
primeiro ano.
Janeiro de 2015
«
Olha que giro» . A exclamação é acompanha de um clique.
Logo a seguir outro. Mais uns tantos. Todos no mesmo ângulo, a
incidirem no mesmo manequim – representação do corpo
expedicionário português na primeira guerra mundial. Uma massa de
adolescentes invade o Átrio Principal do Palácio de São Bento onde
decorre uma exposição sobre a participação de Portugal na
Grande Guerra.Perturbam o ócio das horas. Partilham um
maravilhamento todo superfície e um interesse de fingir. E aí está
uma selfie ao lado do busto de mármore de Anselmo
Braamcamp Freire. (Não chegaram a saber quem foi). « Vem agora tu
para aqui»(de tanto vermos parece que deixámos de ver). Outro
estalar de interruptor, tão mecânico e instintivo como levar a mão
ao nariz . Este a uma pequena escultura dos soldados em África.( Não
por o objeto em si, nem por a cultura, muito menos pela
fotografia, mas porque sim).
Na
verdade, também nunca gostei de museus. Nunca vi nem ouvi vida ali.
Clarice Lispector vs Claudia Andujar
![]() | |||
“Fui
à casa de Clarice Lispector para fotografá-la a pedido da
revista Claudia,
que naquele ano de 1961 preparava uma reportagem sobre a escritora.
Pouco me lembro daquele dia perdido no tempo, mas há detalhes que
guardo para sempre.
Ninguém
da revista me acompanhava e fui recebida com muita simpatia por
aquela mulher linda, vestida com simplicidade e elegância.
Conversamos
pouco. Quis deixá-la à vontade para a foto, e perguntei como
gostaria de se posicionar. Se não me engano, a ideia de sentar
diante da máquina de escrever e começar a trabalhar em algum texto
foi de Clarice. E então ela se deixou absorver pelo ato de escrever,
completamente entregue, sem quase notar minha presença.”
in,
Blogue da Coracnaify
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"- Estão aqui as fotografias que me emprestou. Onde as ponho?
Na semana anterior, Dona Munda mostrou-lhe o álbum de família. Espantoso como ela,na sua juventude era parecida com a filha Deolinda. O médico não saberia distinguir entre uma e outra. Essa semelhança impressionou-o a ponto de o encorajar a abdicar do distanciado respeito que ele sempre preservou. E foi por isso que ele pediu as fotografias de empréstimo. Dona Munda reagiu com a mesma indolência com que agora sugere que o médico tome posse dessas lembranças.
- Leve-as, fique com elas , meu caro Doutor. as fotos fazem de parentes peças de mobiliário.
- Ora. Dona Munda...
- Além disso estas fotos não me pertencem.
- Não entendi: essas fotos não são suas?
- Eu é que não sou dessas fotos. Tudo isso aí é de um tempo que já morreu, a gente fica menos vivo só de entrar nessas lembranças."
- Mia Couto, in venenos de deus,remédios do diabo
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(Ao tirar o bolo de
chocolate do forno, a mãe torcia o nariz. Depois de o
desenformar, abanou a cabeça com ar desconsolado. Sempre que os bolos
não apresentam um aspeto franco, compara-os ao bolo da Heidi. De tão
duro, virou tambor.Não será certamente um instrumento
de percussão para o meu irmão.)
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entre parêntesis
O
violino das quatro Estações de Vivaldi ganhava corpo na sala de
aula quase vazia. O timbre avançava brilhante, agudo. Depois
amenizava. Tinha a mesma qualidade límpida da manhã. A educadora
Nucha sentada numa pequena cadeira, mão no peito,olhos lacrimosos e
um copo de água nas mãos, não aguentou até ao final do intervalo
para abandonar o local. As duas funcionárias que a tentavam auxiliar
mostravam uma atenção adulta, pouco expressiva.
Depois
de almoço as cadeias foram ocupadas pelas crianças que desenhavam o
fim-de-semana passado por sugestão de João, o
auxiliar. Tomás sobrepunha-se à música de fundo. Papagueava sem
freio. Era o centro das atenções na mesa onde se encontrava com
mais cinco crianças. Arranhava uma cantiga de Anselmo Ralph, depois
outra do género, uma lengalenga dos macacos nas paredes e outras
coisas mais. Ainda assim, o desenho surgia
resoluto. Cláudia captava-lhe os olhos grandes, expressivos,
emoldurados num corte de cabelo com uma franja linear. Quando os
aliviou
da
folha,
numa fração
de segundo do
seu
silêncio, ficou na fotografia a desenhar. E a sinfonia de Vivaldi
prosseguia( prossegue,
talvez) inabalável no seu curso circular, mais ou menos sumida. E
as crianças vêm e vão.
Desfazem-se
da
infância; mudam de pele.
Poderia
dizer-vos: amo-vos como sois. Nesse jeito desenfreado de correr atrás
de uma bola ( Olha o João. Está à defesa na baliza com uma sandes
na mão!), no modo tímido, ainda que sinuoso de olhar ( a Madalena e
a Cláudia nas laterais. Cumplicidade chegada, fotogenia no tom).
“Somos feitos da mesma matéria dos sonhos”(
Shakespeare)–incrivelmente belos, passageiros,um tanto irreais. Não
estou aqui para vos educar (que profissão inútil!). Simplesmente
para vos apreciar e conferir valor:magros, gordos, brancos, negros.
Todos os modelos estão bem.” Toda a gente é interessante se a
gente souber ver toda a gente.” ( Álvaro de Campos)
O olhar é um pensamento
Tudo
assalta tudo,e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora
-não posso escrever mais alto
transmitem-se,interiores,as formas.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora
-não posso escrever mais alto
transmitem-se,interiores,as formas.
-Helberto Helder
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“(…)A transcendência da realidade começa na fotografia e termina na palavra. Porque é que ao olhares um objeto conhecido e vês a sua fotografia, olhas esta com um sentir diferente? Porque é que o real e a sua pressuposta imagem fotográfica têm de permeio algo de estranho ou surpreendente? Há já aí uma transposição para um outro domínio em que o imaginário obscuramente se nos abre, como creio já ter dito. Que todavia se leia o que o escritor viu nesse real fotografado e saberemos como a própria imagem se transfigurou. E é o que se inicia já na representação pictórica do mesmo real, por mais 'realista' que ela for. Mas a palavra transpõe-no para o máximo de irrealização, porque é necessário reconstruí-lo e fixá-lo no puro imaginar. Do real à palavra vai uma distância infinita. É a que vai da bruteza ou confusão à essencialidade oculta, a que vai do ver material ao anônimo ou imaginário aberto por um ver subjetivo que lhe dá uma significação. O real está do lado das coisas. O imaginário, do lado do homem. Mas o real não existe, se o homem o não o fizer existir."
Vergilio Fereira in Pensar
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entre aspas
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