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| Michelle Frankfurter, da série Family Album |
No dia 15 de Abril
Laurinha completou 65 primaveras. Cláudia coroou-a de flores de
tonalidades rosa e lilás. Percorreu o colégio a fazer poses. No
rosto trazia vestigios do caminho percorrido, mas mantinha a expressão fresca da primeira vida. À sua passagem os miúdos
falicitavam-na com vivacidade. As professoras, Rita e Inês, ao fundo
do corredor, acelararam o passo para colar os seus sorrisos ao dela ( clic:
Laurinha com a grinalda de flores no meio!). Mesmo sabendo qual será
o presente de Cláudia – depois das velas apagadas, a maquilhagem
desfeita e os olhos a retomar o brando brilho quotiiano - , as
fotografias são sempre uma surpresa.
Na Avenida Conde de
Valbom uma mulher abre a janela. Os pombos, aos atropelos, debicam
grãos no parapeito. Na agitação de asas e bicos, quase lhe picam
os dedos. A senhora parecia ter acabado de se levantar do leito da
morte, pelos sulcos fundos à volta dos olhos e a pele esvaziada de
vida. Quando fecha a janela e as aves procuram outros alvos, a sombra
intenssifica-se. Logo ao virar da esquina, na Avenida Duque de
Valongo, o gerente de uma pastelaria - camisa aos quadrados, volume a
romper as marcas - prepara as mesas ao ar livre. Tenta
afastar com mão firme e rubusta os pombos assustadiços. Ainda
assim, não resistem ao tentador desafio de uma migalha. Entre o sol
e as nuvens não houve nada. A manhã ergueu-se com uma luz
irrepreencivel. Cláudia entrou no colégio. Procurou domesticar a
claridade excessiva e traduzir nos rostos de Madalena, Marina e
Leonor a alegria - ainda sem grandes motivos.
Uma
chávena
de café vazia na extremidade de uma mesa, um pau de canela, um
pacote de açucar amarrotado. Vai-se desfazendo a agitação urbana.
Homens de fato e gravata com o tom cinzento da mesas, dispersam-se,
abandonam a esplanada.
As nuvens anunciam mais chuva. A Primavera anda pouco convicta.
Deixa-se rir numa claridade inviolável. Depois de almoço, Afonso
entrega-se à fotografia com uma abertura semelhante a esse riso.
Olhos azuis, dentinho a aparecer em todas as expressões, vestígios
de suor e fôlego no rosto. Afonso está crescido. Continua a frequentar o colégio. Agora no
primeiro ano.
Janeiro de 2015
«
Olha que giro» . A exclamação é acompanha de um clique.
Logo a seguir outro. Mais uns tantos. Todos no mesmo ângulo, a
incidirem no mesmo manequim – representação do corpo
expedicionário português na primeira guerra mundial. Uma massa de
adolescentes invade o Átrio Principal do Palácio de São Bento onde
decorre uma exposição sobre a participação de Portugal na
Grande Guerra.Perturbam o ócio das horas. Partilham um
maravilhamento todo superfície e um interesse de fingir. E aí está
uma selfie ao lado do busto de mármore de Anselmo
Braamcamp Freire. (Não chegaram a saber quem foi). « Vem agora tu
para aqui»(de tanto vermos parece que deixámos de ver). Outro
estalar de interruptor, tão mecânico e instintivo como levar a mão
ao nariz . Este a uma pequena escultura dos soldados em África.( Não
por o objeto em si, nem por a cultura, muito menos pela
fotografia, mas porque sim).
Na
verdade, também nunca gostei de museus. Nunca vi nem ouvi vida ali.
Clarice Lispector vs Claudia Andujar
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“Fui
à casa de Clarice Lispector para fotografá-la a pedido da
revista Claudia,
que naquele ano de 1961 preparava uma reportagem sobre a escritora.
Pouco me lembro daquele dia perdido no tempo, mas há detalhes que
guardo para sempre.
Ninguém
da revista me acompanhava e fui recebida com muita simpatia por
aquela mulher linda, vestida com simplicidade e elegância.
Conversamos
pouco. Quis deixá-la à vontade para a foto, e perguntei como
gostaria de se posicionar. Se não me engano, a ideia de sentar
diante da máquina de escrever e começar a trabalhar em algum texto
foi de Clarice. E então ela se deixou absorver pelo ato de escrever,
completamente entregue, sem quase notar minha presença.”
in,
Blogue da Coracnaify
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"- Estão aqui as fotografias que me emprestou. Onde as ponho?
Na semana anterior, Dona Munda mostrou-lhe o álbum de família. Espantoso como ela,na sua juventude era parecida com a filha Deolinda. O médico não saberia distinguir entre uma e outra. Essa semelhança impressionou-o a ponto de o encorajar a abdicar do distanciado respeito que ele sempre preservou. E foi por isso que ele pediu as fotografias de empréstimo. Dona Munda reagiu com a mesma indolência com que agora sugere que o médico tome posse dessas lembranças.
- Leve-as, fique com elas , meu caro Doutor. as fotos fazem de parentes peças de mobiliário.
- Ora. Dona Munda...
- Além disso estas fotos não me pertencem.
- Não entendi: essas fotos não são suas?
- Eu é que não sou dessas fotos. Tudo isso aí é de um tempo que já morreu, a gente fica menos vivo só de entrar nessas lembranças."
- Mia Couto, in venenos de deus,remédios do diabo
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