Imagem Veloz

Entre as imagens e as palavras correm rumores


(Imagem : Chris Marker)





Michelle Frankfurter, da série Family Album

No dia 15 de Abril Laurinha completou 65 primaveras. Cláudia coroou-a de flores de tonalidades rosa e lilás. Percorreu o colégio a fazer poses. No rosto trazia vestigios do caminho percorrido, mas mantinha a expressão fresca da primeira vida. À sua passagem os miúdos falicitavam-na com vivacidade. As professoras, Rita e Inês, ao fundo do corredor, acelararam o passo para colar os seus sorrisos ao dela ( clic: Laurinha com a grinalda de flores no meio!). Mesmo sabendo qual será o presente de Cláudia – depois das velas apagadas, a maquilhagem desfeita e os olhos a retomar o brando brilho quotiiano - , as fotografias são sempre uma surpresa.
( D. continua uma tentação literária. Isto sucede quando o abismo de contardições numa pessoa é espesso.)
Na Avenida Conde de Valbom uma mulher abre a janela. Os pombos, aos atropelos, debicam grãos no parapeito. Na agitação de asas e bicos, quase lhe picam os dedos. A senhora parecia ter acabado de se levantar do leito da morte, pelos sulcos fundos à volta dos olhos e a pele esvaziada de vida. Quando fecha a janela e as aves procuram outros alvos, a sombra intenssifica-se. Logo ao virar da esquina, na Avenida Duque de Valongo, o gerente de uma pastelaria - camisa aos quadrados, volume a romper as marcas - prepara as mesas  ao ar livre. Tenta afastar com mão firme e rubusta os pombos assustadiços. Ainda assim, não resistem ao tentador desafio de uma migalha. Entre o sol e as nuvens não houve nada. A manhã ergueu-se com uma luz irrepreencivel. Cláudia entrou no colégio. Procurou domesticar a claridade excessiva e traduzir nos rostos de Madalena, Marina e Leonor a alegria - ainda sem grandes motivos.

Al Berto vs Luísa Ferreira







"Mas não é nada disto que te quero confiar, querido diário. Quero contar-te o que aconteceu no outro dia. Esteve por aqui uma rapariga a fotografar-nos. Alinhámo-nos rapidamente. Aprumados, como se deve estar, e deixámos que ela – parece que se chama Luísa – nos tirasse o retrato."


- Al Berto, in Dispersos
Robert Doisneau,1956


Uma chávena de café vazia na extremidade de uma mesa, um pau de canela, um pacote de açucar amarrotado. Vai-se desfazendo a agitação urbana. Homens de fato e gravata com o tom cinzento da mesas, dispersam-se, abandonam a esplanada. As nuvens anunciam mais chuva. A Primavera anda pouco convicta. Deixa-se rir numa claridade inviolável. Depois de almoço, Afonso entrega-se à fotografia com uma abertura semelhante a esse riso. Olhos azuis, dentinho a aparecer em todas as expressões, vestígios de suor e fôlego no rosto. Afonso está crescido. Continua a frequentar o colégio. Agora no primeiro ano.

Janeiro de 2015


« Olha que giro» . A exclamação é acompanha de um clique. Logo a seguir outro. Mais uns tantos. Todos no mesmo ângulo, a incidirem no mesmo manequim – representação do corpo expedicionário português na primeira guerra mundial. Uma massa de adolescentes invade o Átrio Principal do Palácio de São Bento onde decorre uma exposição sobre a participação de Portugal na Grande Guerra.Perturbam o ócio das horas. Partilham um maravilhamento todo superfície e um interesse de fingir. E aí está uma selfie ao lado do busto de mármore de Anselmo Braamcamp Freire. (Não chegaram a saber quem foi). « Vem agora tu para aqui»(de tanto vermos parece que deixámos de ver). Outro estalar de interruptor, tão mecânico e instintivo como levar a mão ao nariz . Este a uma pequena escultura dos soldados em África.( Não por o objeto em si, nem por a cultura,  muito menos pela fotografia, mas porque sim).


Na verdade, também nunca gostei de museus. Nunca vi nem ouvi vida ali.

Clarice Lispector vs Claudia Andujar





Fui à casa de Clarice Lispector para fotografá-la a pedido da revista Claudia, que naquele ano de 1961 preparava uma reportagem sobre a escritora. Pouco me lembro daquele dia perdido no tempo, mas há detalhes que guardo para sempre.
Ninguém da revista me acompanhava e fui recebida com muita simpatia por aquela mulher linda, vestida com simplicidade e elegância.
Conversamos pouco. Quis deixá-la à vontade para a foto, e perguntei como gostaria de se posicionar. Se não me engano, a ideia de sentar diante da máquina de escrever e começar a trabalhar em algum texto foi de Clarice. E então ela se deixou absorver pelo ato de escrever, completamente entregue, sem quase notar minha presença.”

in, Blogue da Coracnaify

"- Estão aqui as fotografias que me emprestou. Onde as ponho?
 Na semana anterior, Dona Munda mostrou-lhe o álbum de família. Espantoso como ela,na sua juventude era parecida com a filha Deolinda. O médico não saberia distinguir entre uma e outra. Essa semelhança impressionou-o a ponto de  o encorajar a abdicar do distanciado respeito que ele sempre preservou. E foi por isso que ele pediu as fotografias de empréstimo. Dona Munda reagiu com a mesma indolência com que agora sugere que o médico tome posse dessas lembranças.
- Leve-as, fique com elas , meu caro Doutor. as fotos fazem de parentes peças de mobiliário.
- Ora. Dona Munda...
- Além disso estas fotos não me pertencem.
- Não entendi: essas fotos não são suas?
- Eu é que não sou dessas fotos. Tudo isso aí é de um tempo que já morreu, a gente fica menos vivo só de entrar nessas lembranças."

- Mia Couto, in venenos de deus,remédios do diabo