Imagem Veloz

Entre as imagens e as palavras correm rumores


(Imagem : Chris Marker)





“As memórias lhe fazem bem. A Avó afaga uma mão com a outra como se entendesse retificar o seu destino, desenhado em seus entortados dedos.
- Agora, meu neto, me chegue aquele álbum.
Aponta um velho álbum de fotografias pousado na poeira do armário. Era ali que, às escondidas, ela vinha tirar vingança do tempo. Naquele livro a Avó visitava lembranças, doces revivências.
Mas quando o álbum se abre em seu colo eu reparo, espantado, que não há fotografia nenhuma. As páginas de desbotada cartolina estão vazias. Ainda se notam as marcas onde, antes, estiveram coladas fotos.
- Vá. Sente aqui que eu lhe mostro.
Finjo que acompanho, cúmplice da mentira.
- Está ver aqui seu pai, tão novo, tão clarinho até parece mulato?
E vai repassando as folhas vazias, com aqueles seus dedos sem aptidão, a voz num fio como se não quisesse despertar os fotografados.
- Aqui, veja bem, aqui está sua mãe. E olhe nesta, você, tão pequeninho! Vê como está bonita consigo no colo?
Me comovo, tal é a convicção que deitava em suas visões, a ponto de meus dedos serem chamados a tocar o velho álbum. Mas Dulcineusa corrige-me.
- Não passe a mão pelas fotos que se estragam. Elas são o contrário de nós: apagam-se quando recebem carícias.
Dulcineusa queixa-se que ela nunca aparece em nenhuma foto. Sem remorso, empurro mais longe a ilusão. Afinal, a fotografia é sempre uma mentira. Tudo na vida está acontecendo por repetida vez.
- Engano seu. Veja esta foto, aqui está a Avó.
- Onde? Aqui no meio desta gente toda?
- Sim, Avó. É a senhora aqui de vestido branco.
- Era uma festa? Parece uma festa.
- Era a festa de aniversário da Avó.
Vou ganhando coragem, quase acreditando naquela falsidade.
- Não me lembro que me tivessem feito uma festa…
- E aqui, veja aqui, é o Avô lhe entregando uma prenda.
- Mostre! Que prenda é essa, afinal?
- É um anel, Avó. Veja bem, como brilha este anel!
Dulcineusa fixa a inexistente foto de ângulos diferentes. Depois, contempla longamente as mãos como se as comparasse com a imagem ou nelas se lembrasse de um outro tempo. […]
Quem parte de um lugar tão pequeno, mesmo que volte, nunca retorna. […]
Os lugares não se encontram, constroem-se. […]
O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora.”

Mia Couto, in Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra








(Ele prestava-lhe uma atenção viva ( em silêncio). Ela envolvia-o com uma expressividade enriquecida de sorrisos. Deixava voar os gestos. Não era propriamente um muro o que os separava. Talvez um véu. A força da imagem estava numa certa ambivalência, uma intimidade smi emcoberta.)

"Vejo, e já é muito"

"Ninguém compreende o outro. Somos, como disse o poeta, ilhas no mar da vida; corre entre nós o mar que nos define e separa. Por mais que uma alma se esforce por saber o que é outra alma, não saberá senão o que lhe diga uma palavra - sombra disforme no chão do seu entendimento.
Amo as expressões porque não sei nada do que exprimem. Sou como o mestre de Santa Marta: contento-me com o que me é dado. Vejo, e já é muito. Quem é capaz de entender?
Talvez seja por este cepticismo do inteligível que eu encaro de igual modo uma árvore e uma cara, um cartaz e um sorriso. (Tudo é natural, tudo artificial, tudo igual.)"

-Bernardo Soares, in livro do desassossego
Os melhores retratos de Tamsin davam-se no intervalo da necessidade de ficar bem na fotografia e no receio que isso não acontecesse, com todos os fantasmas interiores a açambarcar as expressões e os gestos. Cláudia volta a insistir nos grandes planos onde tudo isto ganhava relevo ( « a fotografia é implacável», o Miguel sempre disse) . Editou apenas o que ficou desse intervalo. Como um momento em que os pés descansam dos saltos e o corpo respira livre de espartilhos. Há uma beleza não fabricada que tem um cair despojado, despretensioso e livre.
Robert Frank




"O florir do encontro casual
Dos que hão sempre de ficar estranhos…

O único olhar sem interesse recebido no acaso
Da extrangeira rápida…

O olhar de interesse da creança trazida pela mão
Da mãe distraida…

As palavras de episodio trocadas
Com o viajante episódico
Na episódica viagem…

Grandes maguas de todas as coisas serem bocados…
Caminho sem fim…"

Álvaro de Campos, in livro de versos
Nunca nos podemos banhar duas vezes na água do mesmo rio “( Heraclito). A fotografia fala-nos nisto: do extraordinário e da vida que corre e a correr renova e desfaz…


O céu e a terra passarão…” ( Mateus 24:35) mas o extraordinário reacender-se-á inesperadamente. O rosto, o gesto, a assinatura são só os lugares onde se mostrou (e voou).
Por Dawoul Bry, da série Class Pictures

I. exibe com satisfação as fotografias da filha. B. é um espanto. Conseguimos prová-lo. A luz enamorou-se dela.O tom de pele e as cores do vestido naquele fundo assentaram na perfeição (seria sorte?). E depois o sorriso, ao rubro, com a alegria que as mães gostam de ver nos filhos. A cara toda no enquadramento. Onde está a fotógrafa? Tornou-se uma raiz esquecida. Isto sucede porque carregar num botão e copiar a realidade em fragmentos parece coisa de crianças. Só o olhar treinado e atento  vê no referente uma espécie de autorretrato indireto.O retrato técnico é uma relação do fotógrafo com o modelo que a expressão tantas vezes sintetiza. Depois entra sempre o imprevisto. Fotografar é ( também) estar alerta.


-  Qual é a tua profissão?

- Tiro fotografias.

- E só fazes isso!?

Cuando las fotos eran retratos minuteros al aire libre