![]() |
|
Depois de viajar por
uma série de imagens de Jan Saudeck, acabei por me lançar exausta
na que me pareceu mais nua que todos os nus que vi.
|
Jan Saudek ( 120km/h)
O rapaz indiano
Tinha um olhar límpido e uma amabilidade despretensiosa.Dava
vontade de ficar
a flutuar naquele rosto. E ser feliz.
"No último
dia em que nos encontrámos, a Cláudia ofereceu-se para me levar ao
carro. Respondi que não era necessário - estava tão perto e, além disso,
eu deveria até andar mais a pé...
Insistiu, «talvez haja pêlo da Lukita no banco», mas acabámos por nos despedir ali.
Na curta distância que me separava do parque onde deixei o "Sapinho", o pensamento nasceu sincopado. As ideias eram simples flashes, sem pressa, sem pressão. E uma das que me acompanhou trazia Lukita.
Lukita.
Não a conheci mas muitas vezes esteve ali ao lado, nestes nossos
encontros sem tempo - mesmo que com os minutos a pingar rapidamente,
quando o toque da campainha comandava os meus passos.
Lukita nunca foi tema de uma nossa conversa. E, ainda assim, estava lá.
Atravessava-as, entrava e saía. A sua presença nunca precisou ser
anunciada. Nem registada.
No Deve & Haver da nossa vida talvez lancemos o que é importante. Nunca o que é vital. Nas Receitas nunca haverá entrada para o afecto, como nas Despesas não há linhas para o vazio que não sabemos dizer.
Dizemos
Vi um pássaro,
acrescentamos
Comi morangos.
Nunca nos lembramos de referir
Respirei.
Também o ar entra e sai e atravessa as nossas conversas."
- Cristina Silveira de Carvalho
# CA 102
Saber olhar para uma
câmara é uma competência. Filipe tem esta marca.Está bem consigo quando olham para ele.
“ Era uma fotografia antiga e eu também estava lá. Era um grupo, talvez no Jardim Botânico - foi aí que te conheci? Mas eu conheci-te no espaço do imaginário, sem realidade plausível para poderes ser real. Mas no imaginário é que é tudo e o real é uma procura para se encontrar com ele. E quando o não encontra há só que desistir - Flora. Onde estás estavas? Oriana estava um pouco de lado. E ria. Sempre a conheci a rir, não deve ter chorado ao nascer. Olhei a foto e todo eu estremeci de uma ternura breve. Tinha um vestido claro lembro-me devia talvez já ser Verão. Então tomou-me o desejo de a isolar, suprimir o excesso à sua volta, mesmo o de mim que também lá estava. Porque tudo era demais para ela só existir num recanto de mim, no absurdo de retornar à vida o que os anos submergiram - quantos anos? Mas isso mesmo - como é fascinante. Quarenta anos talvez? Oriana . Ficção mítica da minha fadiga. Retornar à vida o que ninguém sabe, o que ninguém recorda. E foi como se regressasse ao fim do tempo. À convulsão de mim no extremo da memória. À eternidade que lá mora. Tomei o retrato, estalava já nalguns sítios, levei-o a uma fotografia. O homem olhou-a, não era possível, tinha o seu orgulho profissional. Mas mesmo com defeitos, disse eu. O homem tinha o seu prestígio, eu tinha a minha necessidade. E decerto havia tanta ansiedade no meu pedido. E uns oito dias depois. O homem tirou a fotografia do envelope - Oriana. A sem par. Peguei,guardei-a logo, tudo na vida negava o meu encantamento. Trouxe-a no bolso e quando cheguei a casa. Não queria ver, a sua própria imagem era demais para o absoluto de imaginar. Porque havia nela uma fracção de realidade e tudo me existiu no irreal “
-Vergílio Ferreira, in até ao fim
Etiquetas:
sublinhar
8 de Maio de 2015
«Vamos
à rua!?» A resposta era um excesso.)
![]() |
| Adama |
"O
que nos diz a imagem? Diz-nos o que é e não o diz.
Porque
não é uma palavra. Antes um silêncio,
Uma
ausência, um vazio.
O
seu sentido é uma promessa de sentido
Ou o
silêncio do sentido que respira e transparece.
Ausência
na presença plena.
Cintilação
silenciosa e fixa de um olhar sem fim.
Um
olhar vazio de tudo – que vê e não vê
E só
vê porque é cego.
Tudo
nele é visão, mas a visão vê tudo."
António
Ramos Rosa, «Le Domaine Enchanté»
Subscribe to:
Posts (Atom)




