" Modelo. A centelha apanhada na sua pupila dá significação a toda a sua pessoa."
-Robert Bresson
"Não há rosto
que não envolva uma paisagem desconhecida, inexplorada, não há
paisagem que não seja povoada por um rosto amado ou sonhado, que não
desenvolva um rosto por vir ou já passado. Que rosto não chamou as
paisagens que amalgamava, o mar e a montanha, que paisagem não
evocou o rosto que a teria completado, que lhe teria fornecido o
complemento inesperado das suas linhas e dos seus traços?"
- Gilles Deleuze
Jan Saudek ( 120km/h)
O rapaz indiano
Tinha um olhar límpido e uma amabilidade despretensiosa.Dava
vontade de ficar
a flutuar naquele rosto. E ser feliz.
"No último
dia em que nos encontrámos, a Cláudia ofereceu-se para me levar ao
carro. Respondi que não era necessário - estava tão perto e, além disso,
eu deveria até andar mais a pé...
Insistiu, «talvez haja pêlo da Lukita no banco», mas acabámos por nos despedir ali.
Na curta distância que me separava do parque onde deixei o "Sapinho", o pensamento nasceu sincopado. As ideias eram simples flashes, sem pressa, sem pressão. E uma das que me acompanhou trazia Lukita.
Lukita.
Não a conheci mas muitas vezes esteve ali ao lado, nestes nossos
encontros sem tempo - mesmo que com os minutos a pingar rapidamente,
quando o toque da campainha comandava os meus passos.
Lukita nunca foi tema de uma nossa conversa. E, ainda assim, estava lá.
Atravessava-as, entrava e saía. A sua presença nunca precisou ser
anunciada. Nem registada.
No Deve & Haver da nossa vida talvez lancemos o que é importante. Nunca o que é vital. Nas Receitas nunca haverá entrada para o afecto, como nas Despesas não há linhas para o vazio que não sabemos dizer.
Dizemos
Vi um pássaro,
acrescentamos
Comi morangos.
Nunca nos lembramos de referir
Respirei.
Também o ar entra e sai e atravessa as nossas conversas."
- Cristina Silveira de Carvalho
# CA 102
Saber olhar para uma
câmara é uma competência. Filipe tem esta marca.Está bem consigo quando olham para ele.
“ Era uma fotografia antiga e eu também estava lá. Era um grupo, talvez no Jardim Botânico - foi aí que te conheci? Mas eu conheci-te no espaço do imaginário, sem realidade plausível para poderes ser real. Mas no imaginário é que é tudo e o real é uma procura para se encontrar com ele. E quando o não encontra há só que desistir - Flora. Onde estás estavas? Oriana estava um pouco de lado. E ria. Sempre a conheci a rir, não deve ter chorado ao nascer. Olhei a foto e todo eu estremeci de uma ternura breve. Tinha um vestido claro lembro-me devia talvez já ser Verão. Então tomou-me o desejo de a isolar, suprimir o excesso à sua volta, mesmo o de mim que também lá estava. Porque tudo era demais para ela só existir num recanto de mim, no absurdo de retornar à vida o que os anos submergiram - quantos anos? Mas isso mesmo - como é fascinante. Quarenta anos talvez? Oriana . Ficção mítica da minha fadiga. Retornar à vida o que ninguém sabe, o que ninguém recorda. E foi como se regressasse ao fim do tempo. À convulsão de mim no extremo da memória. À eternidade que lá mora. Tomei o retrato, estalava já nalguns sítios, levei-o a uma fotografia. O homem olhou-a, não era possível, tinha o seu orgulho profissional. Mas mesmo com defeitos, disse eu. O homem tinha o seu prestígio, eu tinha a minha necessidade. E decerto havia tanta ansiedade no meu pedido. E uns oito dias depois. O homem tirou a fotografia do envelope - Oriana. A sem par. Peguei,guardei-a logo, tudo na vida negava o meu encantamento. Trouxe-a no bolso e quando cheguei a casa. Não queria ver, a sua própria imagem era demais para o absoluto de imaginar. Porque havia nela uma fracção de realidade e tudo me existiu no irreal “
-Vergílio Ferreira, in até ao fim
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sublinhar
8 de Maio de 2015
«Vamos
à rua!?» A resposta era um excesso.)
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