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| Nina Lee |
A menina enfiou um
chapéu azul e amarelo que a protegia do sol. Com um elástico, prendeu-o à volta do queixo. O estado de alma tornara-se uma adivinha.
Era vê-la correr naquelas planícies verdes e ensolaradas de olhos escondidos e tranças pretas a oscilarem ao sabor do vento e do
movimento. No friso amarelo do chapéu de pano estava escrito,a letras manuscritas, Inês L.
( Esta sim, esta não. Esta ( não se veem os olhos):sim ou não?)
"Não há rosto
que não envolva uma paisagem desconhecida, inexplorada, não há
paisagem que não seja povoada por um rosto amado ou sonhado, que não
desenvolva um rosto por vir ou já passado. Que rosto não chamou as
paisagens que amalgamava, o mar e a montanha, que paisagem não
evocou o rosto que a teria completado, que lhe teria fornecido o
complemento inesperado das suas linhas e dos seus traços?"
- Gilles Deleuze
Jan Saudek ( 120km/h)
O rapaz indiano
Tinha um olhar límpido e uma amabilidade despretensiosa.Dava
vontade de ficar
a flutuar naquele rosto. E ser feliz.
"No último
dia em que nos encontrámos, a Cláudia ofereceu-se para me levar ao
carro. Respondi que não era necessário - estava tão perto e, além disso,
eu deveria até andar mais a pé...
Insistiu, «talvez haja pêlo da Lukita no banco», mas acabámos por nos despedir ali.
Na curta distância que me separava do parque onde deixei o "Sapinho", o pensamento nasceu sincopado. As ideias eram simples flashes, sem pressa, sem pressão. E uma das que me acompanhou trazia Lukita.
Lukita.
Não a conheci mas muitas vezes esteve ali ao lado, nestes nossos
encontros sem tempo - mesmo que com os minutos a pingar rapidamente,
quando o toque da campainha comandava os meus passos.
Lukita nunca foi tema de uma nossa conversa. E, ainda assim, estava lá.
Atravessava-as, entrava e saía. A sua presença nunca precisou ser
anunciada. Nem registada.
No Deve & Haver da nossa vida talvez lancemos o que é importante. Nunca o que é vital. Nas Receitas nunca haverá entrada para o afecto, como nas Despesas não há linhas para o vazio que não sabemos dizer.
Dizemos
Vi um pássaro,
acrescentamos
Comi morangos.
Nunca nos lembramos de referir
Respirei.
Também o ar entra e sai e atravessa as nossas conversas."
- Cristina Silveira de Carvalho
# CA 102
Saber olhar para uma
câmara é uma competência. Filipe tem esta marca.Está bem consigo quando olham para ele.
“ Era uma fotografia antiga e eu também estava lá. Era um grupo, talvez no Jardim Botânico - foi aí que te conheci? Mas eu conheci-te no espaço do imaginário, sem realidade plausível para poderes ser real. Mas no imaginário é que é tudo e o real é uma procura para se encontrar com ele. E quando o não encontra há só que desistir - Flora. Onde estás estavas? Oriana estava um pouco de lado. E ria. Sempre a conheci a rir, não deve ter chorado ao nascer. Olhei a foto e todo eu estremeci de uma ternura breve. Tinha um vestido claro lembro-me devia talvez já ser Verão. Então tomou-me o desejo de a isolar, suprimir o excesso à sua volta, mesmo o de mim que também lá estava. Porque tudo era demais para ela só existir num recanto de mim, no absurdo de retornar à vida o que os anos submergiram - quantos anos? Mas isso mesmo - como é fascinante. Quarenta anos talvez? Oriana . Ficção mítica da minha fadiga. Retornar à vida o que ninguém sabe, o que ninguém recorda. E foi como se regressasse ao fim do tempo. À convulsão de mim no extremo da memória. À eternidade que lá mora. Tomei o retrato, estalava já nalguns sítios, levei-o a uma fotografia. O homem olhou-a, não era possível, tinha o seu orgulho profissional. Mas mesmo com defeitos, disse eu. O homem tinha o seu prestígio, eu tinha a minha necessidade. E decerto havia tanta ansiedade no meu pedido. E uns oito dias depois. O homem tirou a fotografia do envelope - Oriana. A sem par. Peguei,guardei-a logo, tudo na vida negava o meu encantamento. Trouxe-a no bolso e quando cheguei a casa. Não queria ver, a sua própria imagem era demais para o absoluto de imaginar. Porque havia nela uma fracção de realidade e tudo me existiu no irreal “
-Vergílio Ferreira, in até ao fim
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sublinhar
8 de Maio de 2015
«Vamos
à rua!?» A resposta era um excesso.)
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| Adama |
"O
que nos diz a imagem? Diz-nos o que é e não o diz.
Porque
não é uma palavra. Antes um silêncio,
Uma
ausência, um vazio.
O
seu sentido é uma promessa de sentido
Ou o
silêncio do sentido que respira e transparece.
Ausência
na presença plena.
Cintilação
silenciosa e fixa de um olhar sem fim.
Um
olhar vazio de tudo – que vê e não vê
E só
vê porque é cego.
Tudo
nele é visão, mas a visão vê tudo."
António
Ramos Rosa, «Le Domaine Enchanté»
“ If I were just curious, it
would be very hard to say to someone, "I want to come to your house and
have you talk to me and tell me the story of your life." I mean people are
going to say, "You're crazy." Plus they're going to keep mighty guarded.
But the camera is a kind of license. A lot of people, they want to be paid that
much attention and that's a reasonable kind of attention to be paid.”
-Diane
Arbus
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entre aspas
- Agora, meu neto, me chegue aquele álbum.
Aponta um velho álbum de fotografias pousado na poeira do armário. Era ali que, às escondidas, ela vinha tirar vingança do tempo. Naquele livro a Avó visitava lembranças, doces revivências.
Mas quando o álbum se abre em seu colo eu reparo, espantado, que não há fotografia nenhuma. As páginas de desbotada cartolina estão vazias. Ainda se notam as marcas onde, antes, estiveram coladas fotos.
- Vá. Sente aqui que eu lhe mostro.
Finjo que acompanho, cúmplice da mentira.
- Está ver aqui seu pai, tão novo, tão clarinho até parece mulato?
E vai repassando as folhas vazias, com aqueles seus dedos sem aptidão, a voz num fio como se não quisesse despertar os fotografados.
- Aqui, veja bem, aqui está sua mãe. E olhe nesta, você, tão pequeninho! Vê como está bonita consigo no colo?
Me comovo, tal é a convicção que deitava em suas visões, a ponto de meus dedos serem chamados a tocar o velho álbum. Mas Dulcineusa corrige-me.
- Não passe a mão pelas fotos que se estragam. Elas são o contrário de nós: apagam-se quando recebem carícias.
Dulcineusa queixa-se que ela nunca aparece em nenhuma foto. Sem remorso, empurro mais longe a ilusão. Afinal, a fotografia é sempre uma mentira. Tudo na vida está acontecendo por repetida vez.
- Engano seu. Veja esta foto, aqui está a Avó.
- Onde? Aqui no meio desta gente toda?
- Sim, Avó. É a senhora aqui de vestido branco.
- Era uma festa? Parece uma festa.
- Era a festa de aniversário da Avó.
Vou ganhando coragem, quase acreditando naquela falsidade.
- Não me lembro que me tivessem feito uma festa…
- E aqui, veja aqui, é o Avô lhe entregando uma prenda.
- Mostre! Que prenda é essa, afinal?
- É um anel, Avó. Veja bem, como brilha este anel!
Dulcineusa fixa a inexistente foto de ângulos diferentes. Depois, contempla longamente as mãos como se as comparasse com a imagem ou nelas se lembrasse de um outro tempo. […]
Quem parte de um lugar tão pequeno, mesmo que volte, nunca retorna. […]
Os lugares não se encontram, constroem-se. […]
O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora.”
Mia Couto, in Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra
(Ele prestava-lhe uma
atenção viva ( em silêncio). Ela envolvia-o com uma
expressividade enriquecida de sorrisos. Deixava voar os gestos. Não
era propriamente um muro o que os separava. Talvez um véu. A força
da imagem estava numa certa ambivalência, uma intimidade smi
emcoberta.)
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entre parêntesis
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