“E a fadiga. E o
medo. E ir dar à aparição de ti. Então devagar. Tenho o envelope
na mão, devagar tiro lento devagar, a fotografia vem aparecendo à
luz. Esplendorosa ovante, a auréola de riso para fora do riso, está
lá .Olho-te intensamente. Olho-te para o lado de lá do que está,
porque não está lá o que procuro — que é o
que procuro? É estranho, que é que? porque não é isso. Como um
muro a imagem, embato contra ela e o que estremece em mim hesita
desorientado como um animal encurralado. Há um riso e vejo-o muito
bem. Devia estar vento, o teu cabelo desfraldado. Vê-se-te uma
orelha, e a maciez da tua pele, tocar-te. Mas estás fora de lá
estar. Há assim um fuga entre a hesitação de imaginar-te e a
travagem de estar ali no teu limite. Mas a imaginação é mais
forte, transborda para além de ti. Depois volto a ver-te para tudo
ser real. Mas não é possível haver esse real no que está em mim,
sofro. Como num mistério, não sei , no sagrado. Em toda a beleza.
Não se pode ter, a verdade dela
está muito mais longe do que ela, quando se chega já não está lá,
é assim. ”
- Vergílio
Ferreira, in até ao fim
