Imagem Veloz

Entre as imagens e as palavras correm rumores


(Imagem : Chris Marker)





“E a fadiga. E o medo. E ir dar à aparição de ti. Então devagar. Tenho o envelope na mão, devagar tiro lento devagar, a fotografia vem aparecendo à luz. Esplendorosa ovante, a auréola de riso para fora do riso, está lá .Olho-te intensamente. Olho-te para o lado de lá do que está, porque não está lá o que procuro que é o que procuro? É estranho, que é que? porque não é isso. Como um muro a imagem, embato contra ela e o que estremece em mim hesita desorientado como um animal encurralado. Há um riso e vejo-o muito bem. Devia estar vento, o teu cabelo desfraldado. Vê-se-te uma orelha, e a maciez da tua pele, tocar-te. Mas estás fora de lá estar. Há assim um fuga entre a hesitação de imaginar-te e a travagem de estar ali no teu limite. Mas a imaginação é mais forte, transborda para além de ti. Depois volto a ver-te para tudo ser real. Mas não é possível haver esse real no que está em mim, sofro. Como num mistério, não sei , no sagrado. Em toda a beleza. Não se pode ter, a verdade dela está muito mais longe do que ela, quando se chega já não está lá, é assim. ”

- Vergílio Ferreira, in até ao fim
“Da sala de jantar passa-se para uma sala quadrada onde há uma porta que dá diretamente para o patamar de pedra que confina com a duna. Quem vem de fora sacode os pés antes de entrar para não encher a casa de areia. Ali as cadeiras de vime pintadas de castanho quase preto fazem um círculo à roda da mesa baixa onde o cigarro poisado no cinzento arde sozinho ao lado da jarra cheia de dálias vermelhas. Nesta sala reinam as fotografias.
 Cercadas pela moldura de prata ora ovais ora redondas ora retangulares as fotografias estabelecem, dentro do tempo, outro tempo, e, dentro da casa outras casas e jardins. Verdes jardins sombrios e secretos cujo sussurrar se funde no silêncio. “




- Sophia de Mello Breyner Andresen, A Casa do Mar, in Histórias da Terra e do Mar


No n.º22 r/c esq. de uma rua como tantas ruas, na porta de entrada, um letreiro discreto ao centro: “Família Fonseca” . Dentro da casa ainda permanece um rapaz em frente a um monitor. Verte mundos através dos dedos longos, cálidos. Correm pelas teclas sem tropeços. Depois param numa espécie de leveza contemplativa. Nas divisões mudas irrompem as fotografias, emolduradas e sempre limpas, da família. Rastos de luz extinta.

« Agora uma pose. Sem correr.»



Paula limpou, com um ligeiro gesto, vestígios de suor na  testa. Tirou os óculos redondos, amplos. Alguma coisa parecia faltar. Os óculos ganharam uma espécie de raiz no rosto; um lugar irrepreensível na expressão. Depois substituiu o chapéu de pano azul, de onde o cabelo saiu murcho, por aquele de palha e abas grandes com um friso de flores ao centro. Iluminou-se.


Um pão numa mão; na outra, uma bolacha. Depois é só esticar os lábios e mostrar os dentes ( sorriso pepsodent). Só faltava um elemento de ligação para mostrar o invisível no que nos é dado a ver (e envolver para tornar mais espesso) .
Nina Lee

“Efémero” quer dizer “Belo”.
A menina enfiou um chapéu azul e amarelo que a protegia do sol. Com um elástico, prendeu-o à volta do queixo. O estado de alma tornara-se uma adivinha. Era vê-la correr naquelas planícies verdes e ensolaradas de olhos escondidos e tranças pretas a oscilarem ao sabor do vento e do movimento. No friso amarelo do chapéu de pano estava escrito,a letras manuscritas, Inês L. 


( Esta sim, esta não. Esta ( não se veem os olhos):sim ou não?)
" Modelo. A centelha apanhada na sua pupila dá significação a toda a sua pessoa."

-Robert Bresson