Imagem Veloz

Entre as imagens e as palavras correm rumores


(Imagem : Chris Marker)





Na História dos Três Porquinhos, Wagner era o Lobo Mau. Começara por encher as bochechas de ar, ajustou os lábios fartos ao microfone e suprou. Ficou a um passo de levar a platéia pelos ares. E a fotógrafa andava por lá. Circundava o caos da direita para a esquerda, subiu para cima da mesa (dizia "reservado", mas enfim); experimentou um plano contrapicado, aberturas de diafragma maiores ... Não foi desta que o Lobo Mau teve uma fotografia digna de moldura. Depois baixaram os  smartphones, os iphones, os tablets, as câmaras compactas, as teleobjectivas e todas essas extensões, mais ou menos sofisticadas, do olhar. As mãos ficaram livres para aplaudir. Um sorriso de mãe — daqueles que deixa a alma ao rubro nos olhos — enche o espaço.  Como estava fora de cena e não fazia parte do assunto principal, ninguém o quis destacar.
A beleza é um irreal em digressão. Debaixo daquele chapéu deu o seu melhor . Partiu momentos depois.
Robert Doisneau

Deixou a velha vida em busca de si.
Saudade, lágrima.
Uma foto. Sorriu.
Trazia consigo os que amava. 

- Edson Rossatto, in cem toques cravados 

“E a fadiga. E o medo. E ir dar à aparição de ti. Então devagar. Tenho o envelope na mão, devagar tiro lento devagar, a fotografia vem aparecendo à luz. Esplendorosa ovante, a auréola de riso para fora do riso, está lá .Olho-te intensamente. Olho-te para o lado de lá do que está, porque não está lá o que procuro que é o que procuro? É estranho, que é que? porque não é isso. Como um muro a imagem, embato contra ela e o que estremece em mim hesita desorientado como um animal encurralado. Há um riso e vejo-o muito bem. Devia estar vento, o teu cabelo desfraldado. Vê-se-te uma orelha, e a maciez da tua pele, tocar-te. Mas estás fora de lá estar. Há assim um fuga entre a hesitação de imaginar-te e a travagem de estar ali no teu limite. Mas a imaginação é mais forte, transborda para além de ti. Depois volto a ver-te para tudo ser real. Mas não é possível haver esse real no que está em mim, sofro. Como num mistério, não sei , no sagrado. Em toda a beleza. Não se pode ter, a verdade dela está muito mais longe do que ela, quando se chega já não está lá, é assim. ”

- Vergílio Ferreira, in até ao fim
“Da sala de jantar passa-se para uma sala quadrada onde há uma porta que dá diretamente para o patamar de pedra que confina com a duna. Quem vem de fora sacode os pés antes de entrar para não encher a casa de areia. Ali as cadeiras de vime pintadas de castanho quase preto fazem um círculo à roda da mesa baixa onde o cigarro poisado no cinzento arde sozinho ao lado da jarra cheia de dálias vermelhas. Nesta sala reinam as fotografias.
 Cercadas pela moldura de prata ora ovais ora redondas ora retangulares as fotografias estabelecem, dentro do tempo, outro tempo, e, dentro da casa outras casas e jardins. Verdes jardins sombrios e secretos cujo sussurrar se funde no silêncio. “




- Sophia de Mello Breyner Andresen, A Casa do Mar, in Histórias da Terra e do Mar


No n.º22 r/c esq. de uma rua como tantas ruas, na porta de entrada, um letreiro discreto ao centro: “Família Fonseca” . Dentro da casa ainda permanece um rapaz em frente a um monitor. Verte mundos através dos dedos longos, cálidos. Correm pelas teclas sem tropeços. Depois param numa espécie de leveza contemplativa. Nas divisões mudas irrompem as fotografias, emolduradas e sempre limpas, da família. Rastos de luz extinta.

« Agora uma pose. Sem correr.»



Paula limpou, com um ligeiro gesto, vestígios de suor na  testa. Tirou os óculos redondos, amplos. Alguma coisa parecia faltar. Os óculos ganharam uma espécie de raiz no rosto; um lugar irrepreensível na expressão. Depois substituiu o chapéu de pano azul, de onde o cabelo saiu murcho, por aquele de palha e abas grandes com um friso de flores ao centro. Iluminou-se.