“ Há cinquenta
anos. Há meio século. É já tempo bastante para a História se
mover. E todavia não é bastante para se mover em nós um sinal
profundo de vida. Um encontro, um elogio, um vexame. Tudo tão pouco.
E tanto. Uma fotografia inesperada de alguém que amámos e morreu e
desapareceu no montão de coisas que foram e nos aconteceram. E de
súbito uma absurda irrealidade começa a existir numa pancada funda
na alma. E um encantamento sem significação. E uma melancolia grave
como um horizonte longínquo. E um choro para dentro, estúpido e
terno.”
- Vergílio
Ferreira, in Pensar
Melita, Catarina e Sóninha
Ficaram
os seus olhares brancos a flutuar no escuro. Havia no rosto das três
um principio comum. Uma espécie de claridade não corrompida a sobressair no negro da pele.
Na
História dos Três Porquinhos, Wagner era o Lobo Mau. Começara por encher
as bochechas de ar, ajustou os lábios fartos ao microfone e suprou. Ficou
a um passo de levar a platéia pelos ares.
E a fotógrafa andava por lá. Circundava o
caos
da direita para a esquerda, subiu para cima da mesa (dizia "reservado", mas enfim);
experimentou um
plano contrapicado, aberturas
de
diafragma maiores ...
Não
foi desta que o Lobo Mau teve
uma fotografia digna de moldura. Depois
baixaram os
smartphones,
os iphones,
os tablets,
as câmaras compactas, as
teleobjectivas
e todas essas extensões,
mais ou menos sofisticadas,
do
olhar.
As mãos ficaram livres para aplaudir. Um sorriso de mãe —
daqueles
que deixa a alma ao rubro nos olhos —
enche
o espaço. Como estava fora de cena
e
não fazia parte do assunto principal, ninguém o quis destacar.
“E a fadiga. E o
medo. E ir dar à aparição de ti. Então devagar. Tenho o envelope
na mão, devagar tiro lento devagar, a fotografia vem aparecendo à
luz. Esplendorosa ovante, a auréola de riso para fora do riso, está
lá .Olho-te intensamente. Olho-te para o lado de lá do que está,
porque não está lá o que procuro — que é o
que procuro? É estranho, que é que? porque não é isso. Como um
muro a imagem, embato contra ela e o que estremece em mim hesita
desorientado como um animal encurralado. Há um riso e vejo-o muito
bem. Devia estar vento, o teu cabelo desfraldado. Vê-se-te uma
orelha, e a maciez da tua pele, tocar-te. Mas estás fora de lá
estar. Há assim um fuga entre a hesitação de imaginar-te e a
travagem de estar ali no teu limite. Mas a imaginação é mais
forte, transborda para além de ti. Depois volto a ver-te para tudo
ser real. Mas não é possível haver esse real no que está em mim,
sofro. Como num mistério, não sei , no sagrado. Em toda a beleza.
Não se pode ter, a verdade dela
está muito mais longe do que ela, quando se chega já não está lá,
é assim. ”
- Vergílio
Ferreira, in até ao fim
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