Imagem Veloz

Entre as imagens e as palavras correm rumores


(Imagem : Chris Marker)





“ Eu não penso: sonho.”

Maria Rita ( aquela menina de sorriso ao rubro. Nos lábios, nos olhos, na pele.)

A BRUXA COR DE ROSA

 
Enquanto a maioria dos meninos desenhavam a bruxa com o tradicional chapéu, vassoura, luas e vestido preto − muitos deles exibindo desenhos ricos em pormenores e sofisticados −, Kelson, o miúdo que tem a pele cor do chocolate e nos olhos o brilho das estrelas, transformou alguns aspetos do estereotipo em poucos minutos e de acordo com as qualidades vivas do momento: deu à bruxa um cabelo cor-de-rosa, vestiu-a de noiva (ele é que disse), no pensamento colocou-lhe uma bailarina e aproveitou para declarar o seu amor pela professora e pela rapariga que por lá andava a tirar fotografias a tudo e a todos. Ficou como se pode ver, não muito perfeito mas espontâneo - próprio daqueles para quem a vida ainda se come quente e não precisa de receitas.

“ Há cinquenta anos. Há meio século. É já tempo bastante para a História se mover. E todavia não é bastante para se mover em nós um sinal profundo de vida. Um encontro, um elogio, um vexame. Tudo tão pouco. E tanto. Uma fotografia inesperada de alguém que amámos e morreu e desapareceu no montão de coisas que foram e nos aconteceram. E de súbito uma absurda irrealidade começa a existir numa pancada funda na alma. E um encantamento sem significação. E uma melancolia grave como um horizonte longínquo. E um choro para dentro, estúpido e terno.”

- Vergílio Ferreira, in Pensar

Melita, Catarina e Sóninha

Ficaram os seus olhares brancos a flutuar no escuro. Havia no rosto das três um principio comum. Uma espécie de claridade não corrompida a sobressair no negro da pele.  
Na História dos Três Porquinhos, Wagner era o Lobo Mau. Começara por encher as bochechas de ar, ajustou os lábios fartos ao microfone e suprou. Ficou a um passo de levar a platéia pelos ares. E a fotógrafa andava por lá. Circundava o caos da direita para a esquerda, subiu para cima da mesa (dizia "reservado", mas enfim); experimentou um plano contrapicado, aberturas de diafragma maiores ... Não foi desta que o Lobo Mau teve uma fotografia digna de moldura. Depois baixaram os  smartphones, os iphones, os tablets, as câmaras compactas, as teleobjectivas e todas essas extensões, mais ou menos sofisticadas, do olhar. As mãos ficaram livres para aplaudir. Um sorriso de mãe — daqueles que deixa a alma ao rubro nos olhos — enche o espaço.  Como estava fora de cena e não fazia parte do assunto principal, ninguém o quis destacar.
A beleza é um irreal em digressão. Debaixo daquele chapéu deu o seu melhor . Partiu momentos depois.
Robert Doisneau

Deixou a velha vida em busca de si.
Saudade, lágrima.
Uma foto. Sorriu.
Trazia consigo os que amava. 

- Edson Rossatto, in cem toques cravados