![]() |
“Nenhuma
forma de amor tem tanto respeito pela liberdade do outro como a
amizade."
-Adama vs Francesco
Alberoni
|
![]() |
«Há
um queijo que nunca ninguém abriu. Está por encetar. E sabes
porquê, minha menina? Por que só seria aberto por quem se tivesse
casado e nunca se tivesse arrependido. Como isto nunca sucedeu com
ninguém, está até hoje por encetar
.
» Eram estas as palavras da avó a Ilusinda perante uma lua redonda
e grande. Nessa altura os
olhos
da
jovem ainda tinham os matizes de todos os sonhos
e
a esperança de ser ela a cortar
a primeira fatia,
era
um
horizonte de motivação
(«
Eu nunca me irei arrepender!»).
Em
1971 casou. Não sei se chegou a abrir o
queijo,
mas continua
casada, teve um filho e três filhas que casaram também. A última,
a mais nova, chama-se Susana e, tal como ela, tem o sonho e o fôlego
para sempre prosseguir.
Uma
noiva é uma espécie de princesa: pele uniforme, reflexos,
fragrâncias, transparências. Nos olhos, o brilho das estrelas. O
sorriso pode apresentar riquíssimas nuances, é comum uma lágrima
ao canto do olho e até turbilhões encobertos. E se o Pai Natal vem
com a neve, as noivas surgem, muitas vezes, nos picos do sol do
meio-dia. Esta não foi excepção: dia claro; Agosto à vista. Por
entre as mãos tão sólidas quanto macias dos pais, ei-la como quem
dá os primeiros passos na outra margem da vida. Muitas coisas
mudaram à superfície do mundo, mas a noiva continua a ir de branco
e o sonho de uma lua grande e próspera arrasta sementes. Colocou-se
ao lado do noivo cujo alinhamento recto e emoções contidas lhe
reforçaram as características (“Sim, quero a liberdade de subir
ao teu lado montanhas escarpadas, ter a tua mão nos redemoinhos do
vento ou no sossego de uma paisagem quieta.“
“Algures,
para lá do certo e do errado, há um jardim, lá me encontrarei
contigo” - Rumi).
O
nome dela: Susana (Susannah:
“lírio”, “açucena”, “pura”); o dele: Eduardo (Hadward:
“rico”, “próspero”, “guardião de riquezas”). Nisto
entra em cena Tomás (franzino, vestido de fato e gravata como gente
crescida, um sorriso claro a rasgar-lhe o rosto fino). Bem podia ser
o guardião dos anéis, aquele que fomenta os elos. Algures,
juntamente com as princesas mais pequenas (Amália, Rute, Mira e
Francisca), aquelas que andam com as Primaveras e a frescura de todos
os inícios, estava Maria. Os quatro já fazem uma constelação. Ou
uma equipa.
A BRUXA COR DE ROSA
“ Há cinquenta
anos. Há meio século. É já tempo bastante para a História se
mover. E todavia não é bastante para se mover em nós um sinal
profundo de vida. Um encontro, um elogio, um vexame. Tudo tão pouco.
E tanto. Uma fotografia inesperada de alguém que amámos e morreu e
desapareceu no montão de coisas que foram e nos aconteceram. E de
súbito uma absurda irrealidade começa a existir numa pancada funda
na alma. E um encantamento sem significação. E uma melancolia grave
como um horizonte longínquo. E um choro para dentro, estúpido e
terno.”
- Vergílio
Ferreira, in Pensar
Melita, Catarina e Sóninha
Ficaram
os seus olhares brancos a flutuar no escuro. Havia no rosto das três
um principio comum. Uma espécie de claridade não corrompida a sobressair no negro da pele.
Na
História dos Três Porquinhos, Wagner era o Lobo Mau. Começara por encher
as bochechas de ar, ajustou os lábios fartos ao microfone e suprou. Ficou
a um passo de levar a platéia pelos ares.
E a fotógrafa andava por lá. Circundava o
caos
da direita para a esquerda, subiu para cima da mesa (dizia "reservado", mas enfim);
experimentou um
plano contrapicado, aberturas
de
diafragma maiores ...
Não
foi desta que o Lobo Mau teve
uma fotografia digna de moldura. Depois
baixaram os
smartphones,
os iphones,
os tablets,
as câmaras compactas, as
teleobjectivas
e todas essas extensões,
mais ou menos sofisticadas,
do
olhar.
As mãos ficaram livres para aplaudir. Um sorriso de mãe —
daqueles
que deixa a alma ao rubro nos olhos —
enche
o espaço. Como estava fora de cena
e
não fazia parte do assunto principal, ninguém o quis destacar.
Subscribe to:
Posts (Atom)







