Almoçageme, Julho de 2014
1.
Volto a percorrer o caminho que conduz ao mar. A casa onde faço uma paragem continua com as portas e as janelas abertas. Sempre foi assim. A luz de Julho abranda ao entardecer. Percebe-se o tilintar de louças e talheres nas casas da vizinhança que habitualmente se recolhe quando o sol se desfaz no mar. Destaca-se a vida dos pássaros e dos insetos numa profusão de sons. Afasto as fitas da porta de entrada quando a voz, um tanto enfraquecida, de Leonor me convida a entrar. Na cozinha, que também é sala e receção, salta-me à vista o vermelho das cerejas num prato em cima da mesa e aquele aconchego de um lar. No quarto ao lado, a amiga que já não via há mais de dois anos levanta-se da cama, a custo, para me receber. A largura e o vigor do rosto de outrora pareciam ter sido aspirados pela quimioterapia. Emagreceu a olhos vistos. Ainda assim, estava incrivelmente bela e a sua presença era um eco de detalhes espalhados pela casa. Vestia-se de azul vivo, puríssimo. A mesma cor que nos seus olhos esmorecia. Voltou a deitar-se na cama, sobre uma colcha cinzenta, aveludada, com almofadas enormes por trás. Contrariamente ao estado débil, ao meio envolvente, havia naquela imagem algo solene. O gato cinzento e felpudo, sossegado aos pés da cama, mantinha com ela, pelo lado mais nobre, uma qualquer semelhança que não sei explicar. Falava com voz cansada do choque do destino, ainda assim da aceitação, do casamento, há um mês, com José − o companheiro de há vinte anos. Falar dele era dizer algo de um amor maduro, franco, uma valentia que toca o mais fundo de nós, ainda que não puxe manifestos aplausos nem dê para grandes shows. Numa das prateleiras desperta-me o seu retrato a preto e branco, com 16 anos, num tamanho mais destacado. Pelo enquadramento, pela qualidade da impressão, pela expressão segura de traços bem resolvidos. E recordei a história (que me contou há uns anos) de uma paixão incandescente, um casamento emergente e tão efémero e dos sonhos que derreteram ao aproximar-se do real. O meu irmão telefona. Talvez tivesse achado estranha a cadência lenta da minha voz. Vive muitas vezes num frenesim. Espera respostas breves: numa só palavra ( de preferência), duas, no máximo três. Foge para a frente e põe o som alto demais para acreditar melhor que ainda há algo a segurar.
2.
A chegada de José anuncia-se pela aproximação de um carro. Leonor sugere-me que o vá receber. Havia de gostar de me ver. E sim, dá-me um abraço daqueles grandes que me fazem desprender os calcanhares do chão. Reparo que o seu cabelo e a barba ganharam branco em vastidão. Trazia a piza que a mulher lhe pediu e que saboreou no quarto, no descanso das palavras. Partilho com ele, na divisão ao lado, aquela sopa que ainda tem cheiro, cor e sabor; o chá de ervas do lugar, o pão caseiro, o queijo (foi como se comesse) e as cerejas da cor do verniz. Nas suas palavras, mais uma vez a imagem de Leonor se impôs. Falar dela era dizer o imenso . Era exaltar a mulher amante, mãe, raiz. Perdê-la era largar um pedaço, talvez essencial, de si. Nisto o Pedro telefona. Devia ter adormecido quando há umas horas tentei comunicar-lhe que estava na zona, propondo ir ver o mar. Falava com entusiasmo na voz ao dizer que Lídia vai voltar – quinta-feira, depois de um ano na China. Então Leonor ganha fôlego. Traz o prato agora vazio. Abraça José pelas costas, numa doçura que me comove e chama-o Meu Amor.
Fez-se noite. Acabei por já não ir ver o mar.
Quando a Mãe veste aquele casaco comprido, muito quente, fica com a sensação de estar a carregar o mundo. Ao entrar no comboio libertou-se dele sem hesitação. Da janela semi embaciada da carruagem ajustava o rosto a uma mancha translucida. Prestes a choramingar, acenava com a mão. Do lado de fora eu ria. Fazia o gesto de quem segura uma câmara: enquadrar, focalizar, guardar. Na carruagem ao lado, uma senhora observava-me em jeito de sorrir. Já Diane Arbus dizia que as suas melhores fotografias foram as que não chegou a concretizar.
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A andar no triciclo de três rodas, Joana era natural; encostada à parede - com o seu sorriso fugitivo e o vestido de boneca de início dos anos oitenta - , ficou engraçada; a espreitar por entre as grades que delimitavam a escola, a expressão descansava; na hora do confronto individual com a câmara, metia o pescoço pequeno dentro dos ombros tensos, dava ao rosto um ar de agonia e prendia o sorriso desconsolado. Tiago rapidamente percebera que tudo tem uma forma de ser feito para resultar. Começou a ajudar a amiga:
- É como se estivesses a fazer uma vénia ao rei, mas sem te mexeres. - E ensaiava a pose ( clic para o Tiago).
- Devia haver aulas de sorriso ( lá continuava o puto a acertar, cada vez mais seguro na expressão - clic, clic).
- Sabes - continuava ele -. eu já tenho muita prática em fotografia. Desde bébé que sou fotografado ( do lado de cá, Cláudia sorria).
Depois, na primeira tentativa da fotografia de grupo, estava mais compenetrado que qualquer um. Adotou uma postura muito hirta, com as mãos levemente unidas à frente e uma leve abertura de lábios. Joana volta a querer escapar pelas margens e a enfiar a cabeça entre os ombros, antes da quarta tentativa, em que os ombros se cansaram. Tiago, agora virado ligeiramente de lado e completamente esquecido de Sua Majestade, ficou distraído, na fotografia editada, porque foi nessa em que a maior parte dos meninos estavam como deve ser.
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