Imagem Veloz

Entre as imagens e as palavras correm rumores


(Imagem : Chris Marker)





# CA 102

Saber olhar para uma câmara é uma competência. Filipe tem esta marca.Está bem consigo quando olham para ele.


“ Era uma fotografia antiga e eu também estava lá. Era um grupo, talvez no Jardim Botânico - foi aí que te conheci? Mas eu conheci-te no espaço do imaginário, sem realidade plausível para poderes ser real. Mas no imaginário é que é tudo e o real é uma procura para se encontrar com ele. E quando o não encontra há só que desistir - Flora. Onde estás estavas? Oriana estava um pouco de lado. E ria. Sempre a conheci a rir, não deve ter chorado ao nascer. Olhei a foto e todo eu estremeci de uma ternura breve. Tinha um vestido claro lembro-me devia talvez já ser Verão. Então tomou-me o desejo de a isolar, suprimir o excesso à sua volta, mesmo o de mim que também lá estava. Porque tudo era demais para ela só existir num recanto de mim, no absurdo de retornar à vida o que os anos submergiram - quantos anos? Mas isso mesmo - como é fascinante. Quarenta anos talvez? Oriana . Ficção mítica da minha fadiga. Retornar à vida o que ninguém sabe, o que ninguém recorda. E foi como se regressasse ao fim do tempo. À convulsão de mim no extremo da memória. À eternidade que lá mora. Tomei o retrato, estalava já nalguns sítios, levei-o a uma fotografia. O homem olhou-a, não era possível, tinha o seu orgulho profissional. Mas mesmo com defeitos, disse eu. O homem tinha o seu prestígio, eu tinha a minha necessidade. E decerto havia tanta ansiedade no meu pedido. E uns oito dias depois. O homem tirou a fotografia do envelope - Oriana. A sem par. Peguei,guardei-a logo, tudo na vida negava o meu encantamento. Trouxe-a no bolso e quando cheguei a casa. Não queria ver, a sua própria imagem era demais para o absoluto de imaginar. Porque havia nela uma fracção de realidade e tudo me existiu no irreal “

-Vergílio Ferreira, in 
até ao fim


8 de Maio de 2015

(À semelhança da ação da geada nas asas de uma borboleta, as pálpebras de Luka já pesam; os passos, à custa do fardo do tempo, ganharam uma cadência lenta. Agora, nada mais que um inverno. Vai passando das mãos de Cláudia para as de Pedro, roça nos modos simpáticos de Carla. Vem depois Augusta. Com afagos, deixa-lhe um rasto daquele perfume no pelo. A amiga Paula – desde sempre doutora dos cães, mesmo antes de ser gente – fica de rosto espremido quando não consegue restaurar-lhe o brilho dos olhos. Luka lançava-se no verde como uma flecha, dava giros estonteantes, expressava-se com a cauda, as orelhas. E os olhos: inesquecíveis. Não sei porquê, mas fica sempre esta fragrância das estações anteriores ao frio.

«Vamos à rua!?» A resposta era um excesso.)