Imagem Veloz

Entre as imagens e as palavras correm rumores


(Imagem : Chris Marker)





Janeiro de 2015


« Olha que giro» . A exclamação é acompanha de um clique. Logo a seguir outro. Mais uns tantos. Todos no mesmo ângulo, a incidirem no mesmo manequim – representação do corpo expedicionário português na primeira guerra mundial. Uma massa de adolescentes invade o Átrio Principal do Palácio de São Bento onde decorre uma exposição sobre a participação de Portugal na Grande Guerra.Perturbam o ócio das horas. Partilham um maravilhamento todo superfície e um interesse de fingir. E aí está uma selfie ao lado do busto de mármore de Anselmo Braamcamp Freire. (Não chegaram a saber quem foi). « Vem agora tu para aqui»(de tanto vermos parece que deixámos de ver). Outro estalar de interruptor, tão mecânico e instintivo como levar a mão ao nariz . Este a uma pequena escultura dos soldados em África.( Não por o objeto em si, nem por a cultura,  muito menos pela fotografia, mas porque sim).


Na verdade, também nunca gostei de museus. Nunca vi nem ouvi vida ali.

Clarice Lispector vs Claudia Andujar





Fui à casa de Clarice Lispector para fotografá-la a pedido da revista Claudia, que naquele ano de 1961 preparava uma reportagem sobre a escritora. Pouco me lembro daquele dia perdido no tempo, mas há detalhes que guardo para sempre.
Ninguém da revista me acompanhava e fui recebida com muita simpatia por aquela mulher linda, vestida com simplicidade e elegância.
Conversamos pouco. Quis deixá-la à vontade para a foto, e perguntei como gostaria de se posicionar. Se não me engano, a ideia de sentar diante da máquina de escrever e começar a trabalhar em algum texto foi de Clarice. E então ela se deixou absorver pelo ato de escrever, completamente entregue, sem quase notar minha presença.”

in, Blogue da Coracnaify

"- Estão aqui as fotografias que me emprestou. Onde as ponho?
 Na semana anterior, Dona Munda mostrou-lhe o álbum de família. Espantoso como ela,na sua juventude era parecida com a filha Deolinda. O médico não saberia distinguir entre uma e outra. Essa semelhança impressionou-o a ponto de  o encorajar a abdicar do distanciado respeito que ele sempre preservou. E foi por isso que ele pediu as fotografias de empréstimo. Dona Munda reagiu com a mesma indolência com que agora sugere que o médico tome posse dessas lembranças.
- Leve-as, fique com elas , meu caro Doutor. as fotos fazem de parentes peças de mobiliário.
- Ora. Dona Munda...
- Além disso estas fotos não me pertencem.
- Não entendi: essas fotos não são suas?
- Eu é que não sou dessas fotos. Tudo isso aí é de um tempo que já morreu, a gente fica menos vivo só de entrar nessas lembranças."

- Mia Couto, in venenos de deus,remédios do diabo