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| Duane Michals |
“E a fadiga. E o
medo. E ir dar à aparição de ti. Então devagar. Tenho o envelope
na mão, devagar tiro lento devagar, a fotografia vem aparecendo à
luz. Esplendorosa ovante, a auréola de riso para fora do riso, está
lá .Olho-te intensamente. Olho-te para o lado de lá do que está,
porque não está lá o que procuro — que é o
que procuro? É estranho, que é que? porque não é isso. Como um
muro a imagem, embato contra ela e o que estremece em mim hesita
desorientado como um animal encurralado. Há um riso e vejo-o muito
bem. Devia estar vento, o teu cabelo desfraldado. Vê-se-te uma
orelha, e a maciez da tua pele, tocar-te. Mas estás fora de lá
estar. Há assim um fuga entre a hesitação de imaginar-te e a
travagem de estar ali no teu limite. Mas a imaginação é mais
forte, transborda para além de ti. Depois volto a ver-te para tudo
ser real. Mas não é possível haver esse real no que está em mim,
sofro. Como num mistério, não sei , no sagrado. Em toda a beleza.
Não se pode ter, a verdade dela
está muito mais longe do que ela, quando se chega já não está lá,
é assim. ”
- Vergílio
Ferreira, in até ao fim
“Da sala de jantar
passa-se para uma sala quadrada onde há uma porta que dá
diretamente para o patamar de pedra que confina com a duna. Quem vem
de fora sacode os pés antes de entrar para não encher a casa de
areia. Ali as cadeiras de vime pintadas de castanho quase preto fazem
um círculo à roda da mesa baixa onde o cigarro poisado no cinzento
arde sozinho ao lado da jarra cheia de dálias vermelhas. Nesta sala
reinam as fotografias.
Cercadas pela moldura de prata ora ovais ora redondas ora retangulares as fotografias estabelecem, dentro do tempo, outro tempo, e, dentro da casa outras casas e jardins. Verdes jardins sombrios e secretos cujo sussurrar se funde no silêncio. “
- Sophia de Mello Breyner Andresen, A Casa do Mar, in Histórias da Terra e do Mar
Cercadas pela moldura de prata ora ovais ora redondas ora retangulares as fotografias estabelecem, dentro do tempo, outro tempo, e, dentro da casa outras casas e jardins. Verdes jardins sombrios e secretos cujo sussurrar se funde no silêncio. “
- Sophia de Mello Breyner Andresen, A Casa do Mar, in Histórias da Terra e do Mar
No n.º22 r/c esq. de
uma rua como tantas ruas, na porta de entrada, um letreiro discreto
ao centro: “Família Fonseca” . Dentro da casa ainda permanece um
rapaz em frente a um monitor. Verte mundos através dos dedos longos,
cálidos. Correm pelas teclas sem tropeços. Depois param numa
espécie de leveza contemplativa. Nas divisões mudas irrompem as
fotografias, emolduradas e sempre limpas, da família. Rastos de luz extinta.
« Agora uma pose.
Sem correr.»
Paula limpou, com um ligeiro
gesto, vestígios de suor na testa. Tirou os óculos redondos,
amplos. Alguma coisa parecia faltar. Os óculos ganharam uma espécie
de raiz no rosto; um lugar irrepreensível na expressão. Depois
substituiu o chapéu de pano azul, de onde o cabelo saiu murcho, por
aquele de palha e abas grandes com um friso de flores ao centro.
Iluminou-se.
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