Imagem Veloz

Entre as imagens e as palavras correm rumores


(Imagem : Chris Marker)





“E a fadiga. E o medo. E ir dar à aparição de ti. Então devagar. Tenho o envelope na mão, devagar tiro lento devagar, a fotografia vem aparecendo à luz. Esplendorosa ovante, a auréola de riso para fora do riso, está lá .Olho-te intensamente. Olho-te para o lado de lá do que está, porque não está lá o que procuro que é o que procuro? É estranho, que é que? porque não é isso. Como um muro a imagem, embato contra ela e o que estremece em mim hesita desorientado como um animal encurralado. Há um riso e vejo-o muito bem. Devia estar vento, o teu cabelo desfraldado. Vê-se-te uma orelha, e a maciez da tua pele, tocar-te. Mas estás fora de lá estar. Há assim um fuga entre a hesitação de imaginar-te e a travagem de estar ali no teu limite. Mas a imaginação é mais forte, transborda para além de ti. Depois volto a ver-te para tudo ser real. Mas não é possível haver esse real no que está em mim, sofro. Como num mistério, não sei , no sagrado. Em toda a beleza. Não se pode ter, a verdade dela está muito mais longe do que ela, quando se chega já não está lá, é assim. ”

- Vergílio Ferreira, in até ao fim