O
violino das quatro Estações de Vivaldi ganhava corpo na sala de
aula quase vazia. O timbre avançava brilhante, agudo. Depois
amenizava. Tinha a mesma qualidade límpida da manhã. A educadora
Nucha sentada numa pequena cadeira, mão no peito,olhos lacrimosos e
um copo de água nas mãos, não aguentou até ao final do intervalo
para abandonar o local. As duas funcionárias que a tentavam auxiliar
mostravam uma atenção adulta, pouco expressiva.
Depois
de almoço as cadeias foram ocupadas pelas crianças que desenhavam o
fim-de-semana passado por sugestão de João, o
auxiliar. Tomás sobrepunha-se à música de fundo. Papagueava sem
freio. Era o centro das atenções na mesa onde se encontrava com
mais cinco crianças. Arranhava uma cantiga de Anselmo Ralph, depois
outra do género, uma lengalenga dos macacos nas paredes e outras
coisas mais. Ainda assim, o desenho surgia
resoluto. Cláudia captava-lhe os olhos grandes, expressivos,
emoldurados num corte de cabelo com uma franja linear. Quando os
aliviou
da
folha,
numa fração
de segundo do
seu
silêncio, ficou na fotografia a desenhar. E a sinfonia de Vivaldi
prosseguia( prossegue,
talvez) inabalável no seu curso circular, mais ou menos sumida. E
as crianças vêm e vão.
Desfazem-se
da
infância; mudam de pele.