Imagem Veloz

Entre as imagens e as palavras correm rumores


(Imagem : Chris Marker)





#PS 2236

Madalena revelou um rosto desconhecido. Quando desceu do enquadramento esfumou-o em movimentos comuns.
(Ao tirar o bolo de chocolate do forno, a mãe torcia o nariz. Depois de o desenformar, abanou a cabeça com ar desconsolado. Sempre que os bolos não apresentam um aspeto franco, compara-os ao bolo da Heidi. De tão duro, virou tambor.Não será certamente um instrumento de percussão para o meu irmão.)

O violino das quatro Estações de Vivaldi ganhava corpo na sala de aula quase vazia. O timbre avançava brilhante, agudo. Depois amenizava. Tinha a mesma qualidade límpida da manhã. A educadora Nucha sentada numa pequena cadeira, mão no peito,olhos lacrimosos e um copo de água nas mãos, não aguentou até ao final do intervalo para abandonar o local. As duas funcionárias que a tentavam auxiliar mostravam uma atenção adulta, pouco expressiva.


Depois de almoço as cadeias foram ocupadas pelas crianças que desenhavam o fim-de-semana passado por sugestão de João, o auxiliar. Tomás sobrepunha-se à música de fundo. Papagueava sem freio. Era o centro das atenções na mesa onde se encontrava com mais cinco crianças. Arranhava uma cantiga de Anselmo Ralph, depois outra do género, uma lengalenga dos macacos nas paredes e outras coisas mais. Ainda assim, o desenho surgia resoluto. Cláudia captava-lhe os olhos grandes, expressivos, emoldurados num corte de cabelo com uma franja linear. Quando os aliviou da folha, numa fração de segundo do seu silêncio, ficou na fotografia a desenhar. E a sinfonia de Vivaldi prosseguia( prossegue, talvez) inabalável no seu curso circular, mais ou menos sumida. E as crianças vêm e vão. Desfazem-se da infância; mudam de pele.

Poderia dizer-vos: amo-vos como sois. Nesse jeito desenfreado de correr atrás de uma bola ( Olha o João. Está à defesa na baliza com uma sandes na mão!), no modo tímido, ainda que sinuoso de olhar ( a Madalena e a Cláudia nas laterais. Cumplicidade chegada, fotogenia no tom). “Somos feitos da mesma matéria dos sonhos”( Shakespeare)–incrivelmente belos, passageiros,um tanto irreais. Não estou aqui para vos educar (que profissão inútil!). Simplesmente para vos apreciar e conferir valor:magros, gordos, brancos, negros. Todos os modelos estão bem.” Toda a gente é interessante se a gente souber ver toda a gente.” ( Álvaro de Campos)

O olhar é um pensamento




Tudo assalta tudo,e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora
-não posso escrever mais alto
transmitem-se,interiores,as formas.
-Helberto Helder

“(…)A transcendência da realidade começa na fotografia e termina na palavra. Porque é que ao olhares um objeto conhecido e vês a sua fotografia, olhas esta com um sentir diferente? Porque é que o real e a sua pressuposta imagem fotográfica têm de permeio algo de estranho ou surpreendente? Há já aí uma transposição para um outro domínio em que o imaginário obscuramente se nos abre, como creio já ter dito. Que todavia se leia o que o escritor viu nesse real fotografado e saberemos como a própria imagem se transfigurou. E é o que se inicia já na representação pictórica do mesmo real, por mais 'realista' que ela for. Mas a palavra transpõe-no para o máximo de irrealização, porque é necessário reconstruí-lo e fixá-lo no puro imaginar. Do real à palavra vai uma distância infinita. É a que vai da bruteza ou confusão à essencialidade oculta, a que vai do ver material ao anônimo ou imaginário aberto por um ver subjetivo que lhe dá uma significação. O real está do lado das coisas. O imaginário, do lado do homem. Mas o real não existe, se o homem o não o fizer existir."


Vergilio Fereira in Pensar
O rosto anda sempre nu. Talvez por isso Lucas tentasse vesti-lo de expressões exacerbadas.
“SORRIA...OLHE O PASSARINHO” - refrão entranhado, mito urbano. Porquê esta quase obrigatoriadade de sorrir? Os grandes retratos não têm sorriso (mas têm entrega).
"Sê o primeiro a ver o que vês como tu o vês." 


- Robert Bresson