Imagem Veloz

Entre as imagens e as palavras correm rumores


(Imagem : Chris Marker)





O violino das quatro Estações de Vivaldi ganhava corpo na sala de aula quase vazia. O timbre avançava brilhante, agudo. Depois amenizava. Tinha a mesma qualidade límpida da manhã. A educadora Nucha sentada numa pequena cadeira, mão no peito,olhos lacrimosos e um copo de água nas mãos, não aguentou até ao final do intervalo para abandonar o local. As duas funcionárias que a tentavam auxiliar mostravam uma atenção adulta, pouco expressiva.


Depois de almoço as cadeias foram ocupadas pelas crianças que desenhavam o fim-de-semana passado por sugestão de João, o auxiliar. Tomás sobrepunha-se à música de fundo. Papagueava sem freio. Era o centro das atenções na mesa onde se encontrava com mais cinco crianças. Arranhava uma cantiga de Anselmo Ralph, depois outra do género, uma lengalenga dos macacos nas paredes e outras coisas mais. Ainda assim, o desenho surgia resoluto. Cláudia captava-lhe os olhos grandes, expressivos, emoldurados num corte de cabelo com uma franja linear. Quando os aliviou da folha, numa fração de segundo do seu silêncio, ficou na fotografia a desenhar. E a sinfonia de Vivaldi prosseguia( prossegue, talvez) inabalável no seu curso circular, mais ou menos sumida. E as crianças vêm e vão. Desfazem-se da infância; mudam de pele.