“(…)A transcendência da realidade começa na fotografia e termina na palavra. Porque é que ao olhares um objeto conhecido e vês a sua fotografia, olhas esta com um sentir diferente? Porque é que o real e a sua pressuposta imagem fotográfica têm de permeio algo de estranho ou surpreendente? Há já aí uma transposição para um outro domínio em que o imaginário obscuramente se nos abre, como creio já ter dito. Que todavia se leia o que o escritor viu nesse real fotografado e saberemos como a própria imagem se transfigurou. E é o que se inicia já na representação pictórica do mesmo real, por mais 'realista' que ela for. Mas a palavra transpõe-no para o máximo de irrealização, porque é necessário reconstruí-lo e fixá-lo no puro imaginar. Do real à palavra vai uma distância infinita. É a que vai da bruteza ou confusão à essencialidade oculta, a que vai do ver material ao anônimo ou imaginário aberto por um ver subjetivo que lhe dá uma significação. O real está do lado das coisas. O imaginário, do lado do homem. Mas o real não existe, se o homem o não o fizer existir."
Vergilio Fereira in Pensar