Imagem Veloz

Entre as imagens e as palavras correm rumores


(Imagem : Chris Marker)





Este ano o professor Miguel tem em mãos o primeiro ano de escolaridade. Essa matéria plástica, dúctil, recetiva. Quando eleva os olhos por cima dos óculos retangulares, sem aros, o rosto rasga-se com a mesma suavidade com que prenuncia as palavras “menino”, “menina” ou dá os bons-dias. E lá está o pequeno Diogo na primeira fila. Olhos muito abertos, lábios contidos, perfeitamente esculpidos, numa pele que parece porcelana onde a dor ainda não é possível. Logo ao lado dele, a fazer contraste, está a Madalena. Parece já ter vivido centenas de vidas até chegar ali. Responde a tudo o que lhe perguntam, mas deixa a expressão desmaiar numa espécie de tédio. Mais a meio, a Maria Teresa. Teresa não basta, muito menos Teresinha. Quando lhe perguntam como se chama, ela diz um nome longo como um comboio de palavras. Depois,revira com frequência os olhos para os lados e para cima (por este andar arrisca-se a vir sofrer de vertigens!). Ao fundo, na última fila, temos o Rodrigo, o miúdo da afiadeira. Passa as aulas com a obsessão pela agudeza, por isso se atrasa a concluir as fichas. Afia, afia, afia. Todos os dias derrete um lápis. Já os colegas tinham feito os círculos à volta das letras, ainda Rodrigo afiava um lápis que já aí a meio. Teve que ser a Cláudia a desengatar outro para o miúdo terminar a tempo.


«São vinte cinco, caramba, vinte e cinco!» Olha agora o professor com os olhos bem centrados nas lentes e a caneta azul de quadro branco em cujas mãos passa uma sensibilidade fina.