Na Avenida Conde de
Valbom uma mulher abre a janela. Os pombos, aos atropelos, debicam
grãos no parapeito. Na agitação de asas e bicos, quase lhe picam
os dedos. A senhora parecia ter acabado de se levantar do leito da
morte, pelos sulcos fundos à volta dos olhos e a pele esvaziada de
vida. Quando fecha a janela e as aves procuram outros alvos, a sombra
intenssifica-se. Logo ao virar da esquina, na Avenida Duque de
Valongo, o gerente de uma pastelaria - camisa aos quadrados, volume a
romper as marcas - prepara as mesas ao ar livre. Tenta
afastar com mão firme e rubusta os pombos assustadiços. Ainda
assim, não resistem ao tentador desafio de uma migalha. Entre o sol
e as nuvens não houve nada. A manhã ergueu-se com uma luz
irrepreencivel. Cláudia entrou no colégio. Procurou domesticar a
claridade excessiva e traduzir nos rostos de Madalena, Marina e
Leonor a alegria - ainda sem grandes motivos.